Mudar é crescer
Publicado no Jornal do Algarve
Crescer é desenvolver. Desenvolver é mudar, é acreditar que essa mudança introduz uma diferenciação positiva. Com o tempo evoluímos, por vezes quase sem querer ou sem sentir. Seja pela experiência e pelo saber adquiridos, ou pelo simples facto de repensarmos pressupostos e confrontarmo-nos com novas ideias… ou até velhas. Também regredimos. Por vezes estagnamos. Fundamentalmente mudamos. Eu e nós. O individuo e a sociedade.
A busca e a partilha do saber, a opinião adquirida e promovida, a abertura às influências exteriores e uma cultura que facilite o acesso à informação, são pilares do desenvolvimento.
Sabemos hoje que para produzir melhor, necessitamos de mais competências, mais formação especializada, mas também mais cultura. O que fazemos define quem somos. O resto, aquilo que queremos e podemos ser. Apostar nisto não é mais que aprofundar a democracia.
O Governo já fez saber que quer reestruturar o Estado. Não interessa para aqui se o vai tentar ou conseguir. Não interessa para já, também, se a Administração Pública tem muitas ou poucas pessoas, mas definir o que esperamos, enquanto cidadãos, contribuintes e eleitores dessa figura abstracta e tantas vezes retórica que é o Estado. Esta é a grande questão que se coloca. Melhor: é o desafio! Antes de mudar alguma coisa, se não reflectirmos sobre isto, estamos a condenar o processo. Estamos, no mínimo, a limitar o processo.
Existem muitas áreas que podem ser reorganizadas, reformadas e até extintas. O Estado foi duplicando serviços, competências, atribuições, etc. A Administração Pública, Central e Local, foi crescendo sem grande coerência. Não existiu planificação efectiva. Não existiu (nem existe!) uma estratégia global ou uma política de recursos humanos. O Estado demitiu-se durante anos da diferenciação dos seus quadros, da evolução qualitativa, da promoção da especialização e da formação contínua das várias carreiras. O número de funcionários foi crescendo, crescendo, crescendo… Não sabemos se são em excesso. Sabemos, por outro lado, que a sustentabilidade é duvidosa. Pelo menos sem subir ainda mais a carga fiscal, ainda que fique de fora uma parte da economia, que teima em fugir aos cofres públicos. Provavelmente uma reforma séria começava por aqui: conter e minimizar a economia paralela.
Existe um grave problema por resolver (não sei se o será algum dia). Refiro-me concretamente ao modelo de administração e à organização e direcção das várias estruturas. Mas sobretudo à responsabilização dos dirigentes pelos resultados. Dos níveis intermédios até ao topo. Isto implica que exista uma estratégia e planeamento.
A mudança, se a quisermos efectiva e capaz de alterar a situação actual, deve ser feita à custa da programação de objectivos, responsabilizando os dirigentes pelos resultados, promovendo avaliações de desempenho. Quem não cumpre, sai. Em conjunto, devem ser avaliados os restantes funcionários, dependendo a progressão das carreiras da produtividade e dos objectivos cumpridos. De forma clara, séria e credível.
2006-11-22
2006-11-20
2006-11-19
2006-11-14
O Dr. Paulo Macedo estará de saída em Maio?
O Sindicato dos trabalhadores dos impostos entende que o ordenado do Director-geral da DGCI, Paulo Macedo, na ordem dos 23 mil Euros, é bem pago!
Aqui está um sindicato que admitiu que errou, quando acusou o Governo de ter nomeado um alto dirigente com um vencimento ao nível do sector privado.
De facto, ganha muito acima dos seus homólogos, muito acima do seu Ministro, do Primeiro-ministro ou do Presidente da República. Estranho é estes cargos serem tão mal pagos! Um Ministro ou um Secretário de Estado tutelam milhões de Euros, recebendo ao nível de Directores intermédios de empresas privadas…
Como é que se responsabiliza gestores de áreas vitais, sem pagar em conformidade? Sem receita não há despesa... este Director-geral já conseguiu recuperar mais verbas que os seus antecessores, mas como somos um País de moralistas, ou há para todos, ou ninguém come. Assim vamos ficando.
Se o Estado (i.e. todos nós) quer mais eficiência, deve rever os vencimentos de uma parte dos gestores de organismos públicos. A DGCI é, sem dúvida, a par da Segurança Social, uma área onde devemos pagar os melhores gestores que conseguirmos contratar. Mesmo os melhores. Caso contrário…
O Sindicato dos trabalhadores dos impostos entende que o ordenado do Director-geral da DGCI, Paulo Macedo, na ordem dos 23 mil Euros, é bem pago!
Aqui está um sindicato que admitiu que errou, quando acusou o Governo de ter nomeado um alto dirigente com um vencimento ao nível do sector privado.
De facto, ganha muito acima dos seus homólogos, muito acima do seu Ministro, do Primeiro-ministro ou do Presidente da República. Estranho é estes cargos serem tão mal pagos! Um Ministro ou um Secretário de Estado tutelam milhões de Euros, recebendo ao nível de Directores intermédios de empresas privadas…
Como é que se responsabiliza gestores de áreas vitais, sem pagar em conformidade? Sem receita não há despesa... este Director-geral já conseguiu recuperar mais verbas que os seus antecessores, mas como somos um País de moralistas, ou há para todos, ou ninguém come. Assim vamos ficando.
Se o Estado (i.e. todos nós) quer mais eficiência, deve rever os vencimentos de uma parte dos gestores de organismos públicos. A DGCI é, sem dúvida, a par da Segurança Social, uma área onde devemos pagar os melhores gestores que conseguirmos contratar. Mesmo os melhores. Caso contrário…
2006-11-13
Bispos católicos não reconhecem competência ao Estado para legislar o aborto
(aproximação das declarações de um Bispo na Conferência Episcopal em Fátima)
Como é que um Bispo com responsabilidades assume uma afirmação destas na frente das câmaras? (Por trás já era grave!)
Parece que para além de perderem fiéis, estão a perder sanidade mental. Uma coisa é ser contra o aborto, outra é emitirem despautérios destes…
Ou estes senhores da batina evoluem, ou vão perder cada vez mais do espaço que ocuparam durante séculos (e reforço que não me refiro, obviamente, à opinião relativa ao aborto, mas ao não reconhecimento de competência legislativa aos órgãos eleitos ou nomeados nos termos da lei!)
(aproximação das declarações de um Bispo na Conferência Episcopal em Fátima)
Como é que um Bispo com responsabilidades assume uma afirmação destas na frente das câmaras? (Por trás já era grave!)
Parece que para além de perderem fiéis, estão a perder sanidade mental. Uma coisa é ser contra o aborto, outra é emitirem despautérios destes…
Ou estes senhores da batina evoluem, ou vão perder cada vez mais do espaço que ocuparam durante séculos (e reforço que não me refiro, obviamente, à opinião relativa ao aborto, mas ao não reconhecimento de competência legislativa aos órgãos eleitos ou nomeados nos termos da lei!)
2006-11-09
GREVE
Acabo de ouvir que os sindicatos alegam 80% de participação e o Governo 5%.
A diferença é abissal. A verdade ficará algures entre os dois números, bem mais perto dos 5%, acredito!
Porque não atribuir a competência de aferição e publicitação dos dados a uma instituição pública isenta, como o Tribunal de Contas? Se o “Estado” leva o tempo que leva para saber quantos funcionários tem, como é que pode saber quantos fizeram greve? Os sindicatos pior; a credibilidade dos seus dados é mínima.
Apesar de tudo, os ganhos com a greve não devem ser displicentes, sabendo que milhares de funcionários públicos não vão receber o dia, mais custos associados! O que fica por fazer será feito, mais tarde ou mais cedo…
Acabo de ouvir que os sindicatos alegam 80% de participação e o Governo 5%.
A diferença é abissal. A verdade ficará algures entre os dois números, bem mais perto dos 5%, acredito!
Porque não atribuir a competência de aferição e publicitação dos dados a uma instituição pública isenta, como o Tribunal de Contas? Se o “Estado” leva o tempo que leva para saber quantos funcionários tem, como é que pode saber quantos fizeram greve? Os sindicatos pior; a credibilidade dos seus dados é mínima.
Apesar de tudo, os ganhos com a greve não devem ser displicentes, sabendo que milhares de funcionários públicos não vão receber o dia, mais custos associados! O que fica por fazer será feito, mais tarde ou mais cedo…
A questão do aborto
Publicado no Região Sul
Há uns anos decidiram abortar a despenalização do aborto. Faltou coragem política para enfrentar um País cada vez menos católico e pio, embora crescentemente paternalista.
Para tomar uma decisão, aponto duas reflexões: quem beneficia e quem sai prejudicado. Claramente prejudicado, de facto e no limite, fica o feto. Não haja dúvida sobre isto. Por outro lado, os grandes beneficiados são milhares de mulheres que todos os anos recorrem ao aborto clandestino, colocando em risco até três anos da sua liberdade, a sua saúde ou mesmo a vida.
A despenalização da interrupção voluntária da gravidez permite erradicar desde logo um “mercado” clandestino, ilegal, que não paga impostos e que não é regulado, com a agravante de suprir uma necessidade envolta fragilidade emocional e risco de prisão, que inflaciona o preço deste acto. Ainda podemos discutir se é ético ou não, mas mais importante é perceber se o voto é esclarecido e informado. Ainda que seja sempre um voto e conte apenas como um!
Pessoalmente não sou a favor do aborto. O que não significa que seja contra. Votei favoravelmente no último referendo e votarei novamente pela despenalização. Pelos mesmos motivos: considero que a decisão deve caber ao casal, com acompanhamento psicológico e clínico, com regulação.
Em relação ao referendo, sou contra. O Governo tem meios mais baratos para perceber o que o País pensa ou quer. Foi eleito para isso. Não vejo vontade de referendar o TGV, ou outras “grandes” obras…
O nosso conceito de vida tem mudado com a evolução da ciência, dos costumes, com o processo de laicização da sociedade, da sua modernização, etc. Mas onde começamos a “ser”? Todos nós tivemos um início “anfíbio” até deixarmos o líquido amniótico, adquirindo subsequentemente o direito ao nome. Mas antes disso, quando? Com a fecundação? Quando começamos a responder a estímulos? Esta questão pode ser colocada em vários planos. Desde logo biológico, clínico e moral. Mas como no limite compete ao Estado, i.e. todos nós, a tarefa de decidir, legislar e submeter os restantes a essa decisão, ficamos novamente presos aos conceitos dualistas, pré-formatados, enviesados e redutores. Existirão sempre duas correntes. A decisão será sempre inconciliável. Já alterar o quadro jurídico que penaliza quem recorre ao aborto poderia ser uma saída, ainda que um pouco hipócrita. Alinhamos por agora com os Países sub-desenvolvidos. Por contraste, na maioria do hemisfério norte, o aborto é legal!
Mas apesar disto, o Estado deve actuar na área da prevenção, do planeamento familiar e da educação sexual, mas não deve competir a todos nós pagar a factura da IVG. Existe um sector privado capacitado. Até hoje têm pago do seu bolso. Devem continuar! O enfoque não deve ser no financiamento, mas na liberdade individual. Não sendo uma patologia em sentido estrito, não deve consumir recursos públicos, que são e serão escassos.
Venha o debate!
Publicado no Região Sul
Há uns anos decidiram abortar a despenalização do aborto. Faltou coragem política para enfrentar um País cada vez menos católico e pio, embora crescentemente paternalista.
Para tomar uma decisão, aponto duas reflexões: quem beneficia e quem sai prejudicado. Claramente prejudicado, de facto e no limite, fica o feto. Não haja dúvida sobre isto. Por outro lado, os grandes beneficiados são milhares de mulheres que todos os anos recorrem ao aborto clandestino, colocando em risco até três anos da sua liberdade, a sua saúde ou mesmo a vida.
A despenalização da interrupção voluntária da gravidez permite erradicar desde logo um “mercado” clandestino, ilegal, que não paga impostos e que não é regulado, com a agravante de suprir uma necessidade envolta fragilidade emocional e risco de prisão, que inflaciona o preço deste acto. Ainda podemos discutir se é ético ou não, mas mais importante é perceber se o voto é esclarecido e informado. Ainda que seja sempre um voto e conte apenas como um!
Pessoalmente não sou a favor do aborto. O que não significa que seja contra. Votei favoravelmente no último referendo e votarei novamente pela despenalização. Pelos mesmos motivos: considero que a decisão deve caber ao casal, com acompanhamento psicológico e clínico, com regulação.
Em relação ao referendo, sou contra. O Governo tem meios mais baratos para perceber o que o País pensa ou quer. Foi eleito para isso. Não vejo vontade de referendar o TGV, ou outras “grandes” obras…
O nosso conceito de vida tem mudado com a evolução da ciência, dos costumes, com o processo de laicização da sociedade, da sua modernização, etc. Mas onde começamos a “ser”? Todos nós tivemos um início “anfíbio” até deixarmos o líquido amniótico, adquirindo subsequentemente o direito ao nome. Mas antes disso, quando? Com a fecundação? Quando começamos a responder a estímulos? Esta questão pode ser colocada em vários planos. Desde logo biológico, clínico e moral. Mas como no limite compete ao Estado, i.e. todos nós, a tarefa de decidir, legislar e submeter os restantes a essa decisão, ficamos novamente presos aos conceitos dualistas, pré-formatados, enviesados e redutores. Existirão sempre duas correntes. A decisão será sempre inconciliável. Já alterar o quadro jurídico que penaliza quem recorre ao aborto poderia ser uma saída, ainda que um pouco hipócrita. Alinhamos por agora com os Países sub-desenvolvidos. Por contraste, na maioria do hemisfério norte, o aborto é legal!
Mas apesar disto, o Estado deve actuar na área da prevenção, do planeamento familiar e da educação sexual, mas não deve competir a todos nós pagar a factura da IVG. Existe um sector privado capacitado. Até hoje têm pago do seu bolso. Devem continuar! O enfoque não deve ser no financiamento, mas na liberdade individual. Não sendo uma patologia em sentido estrito, não deve consumir recursos públicos, que são e serão escassos.
Venha o debate!
2006-11-04
Toolbox
Publicado no Magazine do Algarve
A Sociedade do Conhecimento, enquanto promessa política, fica sempre bem. É de facto um objectivo imprescindível e essencial a uma sociedade que se quer moderna e dinâmica. Até evoluída.
A forma como se procura atingir esse “estado d’alma” é que denota se o esforço é retórico, ou, ao invés disso, um propósito, um desígnio, uma missão.
A competitividade já não se faz à custa de trabalho indiferenciado, mal pago, máquinas ultrapassadas, métodos e técnicas decadentes ou até com empresários pouco preparados para lidar com o dinamismo próprio de um mercado tendencialmente global.
Os recursos humanos devem ser cada vez mais diferenciados, com formação específica e contínua. Este esforço não deve ser apenas das empresas ou dos empresários. Também os trabalhadores devem participar desse esforço de forma pró-activa, procurar a formação. Mesmo que não lhe seja fornecida, ela pode ser adquirida no “mercado”, seja co-financiada ou não.
A velha questão, de base ideológica, relativa à preponderância da concorrência do trabalho e do capital na obtenção do produto é cada vez mais indiferente. Ambos se complementam e, acima de tudo, contribuem para os objectivos que são comuns e dependentes. Existe ainda uma classe de empresários e de trabalhadores que, por falta de formação, de visão ou de habituação, ainda não chegaram à conclusão que o seu emprego e actividade só são sustentáveis se estiverem em sintonia e se trabalharem no mesmo sentido. Só com o desenvolvimento das condições de trabalho, da qualificação e da indexação da remuneração à produtividade é possível sustentar o desenvolvimento.
Os milhões que têm sido, na minha opinião, esbanjados pelos sindicatos, associações patronais e empresariais ou de sector, empresas privadas e entidades públicas, semi-públicas, sociais e todas as outras que têm subsistido às custas dos fundos para formação profissional, vindos da União Europeia, poderiam ter sido melhor geridos. Não digo com isto que não hajam entidades e formadores de excelência. Mas uma parte está desadequada. O investimento que tem sido feito, provavelmente poderia ter trazido mais vantagens no tecido produtivo, se melhor aplicado. A formação foi massificada, mas agora que o fluxo financeiro começou a ser reduzido, é necessário apostar na qualidade e na avaliação dos resultados. Avaliação isenta e independente.
A caixa de ferramentas mais importante que qualquer cidadão tem é a sua capacidade de querer e saber aprender. Aprender é um “subproduto” importante, mas a tónica deve ser colocada na vontade de querer mudar comportamentos, atitudes e rotinas, traduzindo em produtividade o esforço que a comunidade tem feito, ao financiar a formação de milhares ou milhões de pessoas.
É razoável, por exemplo, o País apresentar ainda classes profissionais, com formação altamente diferenciada, como médicos, advogados, até professores, que apresentam alguma iliteracia informática, ou relutância na massificação do seu uso? Não me parece!
Mas, em bom rigor, se compararmos a nossa realidade actual com aquela de há vinte anos, verificamos que a evolução foi brutal. Resta-nos continuar e tentar acompanhar as evoluções dos Países com que partilhamos mercado, projectos e objectivos.
Publicado no Magazine do Algarve
A Sociedade do Conhecimento, enquanto promessa política, fica sempre bem. É de facto um objectivo imprescindível e essencial a uma sociedade que se quer moderna e dinâmica. Até evoluída.
A forma como se procura atingir esse “estado d’alma” é que denota se o esforço é retórico, ou, ao invés disso, um propósito, um desígnio, uma missão.
A competitividade já não se faz à custa de trabalho indiferenciado, mal pago, máquinas ultrapassadas, métodos e técnicas decadentes ou até com empresários pouco preparados para lidar com o dinamismo próprio de um mercado tendencialmente global.
Os recursos humanos devem ser cada vez mais diferenciados, com formação específica e contínua. Este esforço não deve ser apenas das empresas ou dos empresários. Também os trabalhadores devem participar desse esforço de forma pró-activa, procurar a formação. Mesmo que não lhe seja fornecida, ela pode ser adquirida no “mercado”, seja co-financiada ou não.
A velha questão, de base ideológica, relativa à preponderância da concorrência do trabalho e do capital na obtenção do produto é cada vez mais indiferente. Ambos se complementam e, acima de tudo, contribuem para os objectivos que são comuns e dependentes. Existe ainda uma classe de empresários e de trabalhadores que, por falta de formação, de visão ou de habituação, ainda não chegaram à conclusão que o seu emprego e actividade só são sustentáveis se estiverem em sintonia e se trabalharem no mesmo sentido. Só com o desenvolvimento das condições de trabalho, da qualificação e da indexação da remuneração à produtividade é possível sustentar o desenvolvimento.
Os milhões que têm sido, na minha opinião, esbanjados pelos sindicatos, associações patronais e empresariais ou de sector, empresas privadas e entidades públicas, semi-públicas, sociais e todas as outras que têm subsistido às custas dos fundos para formação profissional, vindos da União Europeia, poderiam ter sido melhor geridos. Não digo com isto que não hajam entidades e formadores de excelência. Mas uma parte está desadequada. O investimento que tem sido feito, provavelmente poderia ter trazido mais vantagens no tecido produtivo, se melhor aplicado. A formação foi massificada, mas agora que o fluxo financeiro começou a ser reduzido, é necessário apostar na qualidade e na avaliação dos resultados. Avaliação isenta e independente.
A caixa de ferramentas mais importante que qualquer cidadão tem é a sua capacidade de querer e saber aprender. Aprender é um “subproduto” importante, mas a tónica deve ser colocada na vontade de querer mudar comportamentos, atitudes e rotinas, traduzindo em produtividade o esforço que a comunidade tem feito, ao financiar a formação de milhares ou milhões de pessoas.
É razoável, por exemplo, o País apresentar ainda classes profissionais, com formação altamente diferenciada, como médicos, advogados, até professores, que apresentam alguma iliteracia informática, ou relutância na massificação do seu uso? Não me parece!
Mas, em bom rigor, se compararmos a nossa realidade actual com aquela de há vinte anos, verificamos que a evolução foi brutal. Resta-nos continuar e tentar acompanhar as evoluções dos Países com que partilhamos mercado, projectos e objectivos.
2006-11-01
2006-10-26
Os “grandes portugueses” ou saber empreender
Publicado no Jornal do Algarve
A RTP lançou um formato interessante. Eleger o “maior” português de todos os tempos. Este “eleger” está constrito à opinião daqueles que o quiserem fazer, o que é redutor, mas, convenhamos, uma das poucas opções que uma estação de televisão tem para chegar a um resultado. Outra hipótese seria comissionar um painel de personalidades nos vários campos profissionais, mas isso não faria render o programa, nem permitiria ganhar grande audiência.
É claro que vamos ter várias “personagens” entre as personalidades. Mas enfim, opinião é isso mesmo.
Vão ser nomeados centenas ou milhares de portugueses. Muitos com méritos reconhecidos. Vai ser uma reflexão nacional. Assim, de repente, vamo-nos lembrar de todas as conquistas e feitos políticos, militares, na geografia e astronomia, na navegação, na medicina, nas ciências, na cultura e por aí fora. A RTP vai fazer serviço público.
Já fiz a minha opção. Votei em D. Afonso Henriques, o primeiro Rei de Portugal. A forma como o escolhi foi bastante simples e até superficial. De todos os possíveis “candidatos”, qual deles, se não tivesse existido, alteraria de forma mais profunda o curso da nossa história? D. Afonso, filho de Henrique, I de Portugal. Sem ele, pura e simplesmente não teríamos nacionalidade. O que não significa que, mais tarde, outro não tivesse feito por isso. Mas a história não é a que queremos, mas a que temos.
Existem outros que deram um contributo indelével e que, por isso, devem ficar para sempre na nossa memória colectiva. Desde D. João II, que deu as bases ao seu primo e sucessor no trono, D. Manuel I, para empreender os Descobrimentos Portugueses. Entre tantos outros, destaco também o Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque. Um nome incontornável é Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e, mais tarde, quase no fim da sua vida, Marquês de Pombal.
Para o bem e para o mal, António de Oliveira Salazar, enquanto Ministro das Finanças ou Marcello Caetano, na qualidade de Professor e autor de Direito, merecem destaque. Também o General sem medo, Humberto Delgado, pela coragem e pelo desafio ao regime ditatorial, ou pela esperança, ainda que efémera, que representou.
O pós-25 de Abril não permite distanciamento, essencial para uma escolha sem tabus, limitações de ordem política ou pessoal. Por esse motivo, fico-me cronologicamente em Salgueiro Maia, pela coragem e pela humildade que teve no cumprimento do seu dever, logo saindo de cena, morrendo quase no esquecimento. Será certamente reabilitado no futuro, como tantos outros grandes portugueses.
Todos os nomes que referi, de tantos outros que poderiam ali constar, foram grandes, porque grandes foram os que lhes seguiram, os que os apoiaram ou simplesmente desafiaram e inspiraram.
A reflexão que fiz sobre este exercício de escolha dos “grandes portugueses”, fez-me recordar a falta de visão e o desinvestimento na Educação e na Formação Profissional. A capacidade de empreender que os portugueses demonstraram no último milénio quedou-se e entrou na “bruma da memória”, transformando-se numa espécie de mito, confortável e saudosista. É uma característica que vem sendo enterrada por toneladas de Euros de subsídios esbanjados. Na falta de um Ensino que acorde empreendedores, que os motive, que os molde e dê ferramentas para que, no futuro, possamos ser novamente grandes. Resta-nos a submissão metafórica da cauda da Europa. Provavelmente fica-nos bem.
Mas poderia ser pior. Muito pior. Para um País que saiu de uma ditadura que diluiu, condicionou e subdesenvolveu, durante décadas, o tecido produtivo, designadamente industrial, que não acompanhou o desenvolvimento tecnológico, que não apostou na formação básica dos recursos humanos, que não os preparou para o mercado de “aquém e além-mar” ou não soube perceber o mundo, o mercado global e até o “império”, como outros fizeram. Sobrevivemos a isto. Ultrapassar vai levar mais que uma geração!
Publicado no Jornal do Algarve
A RTP lançou um formato interessante. Eleger o “maior” português de todos os tempos. Este “eleger” está constrito à opinião daqueles que o quiserem fazer, o que é redutor, mas, convenhamos, uma das poucas opções que uma estação de televisão tem para chegar a um resultado. Outra hipótese seria comissionar um painel de personalidades nos vários campos profissionais, mas isso não faria render o programa, nem permitiria ganhar grande audiência.
É claro que vamos ter várias “personagens” entre as personalidades. Mas enfim, opinião é isso mesmo.
Vão ser nomeados centenas ou milhares de portugueses. Muitos com méritos reconhecidos. Vai ser uma reflexão nacional. Assim, de repente, vamo-nos lembrar de todas as conquistas e feitos políticos, militares, na geografia e astronomia, na navegação, na medicina, nas ciências, na cultura e por aí fora. A RTP vai fazer serviço público.
Já fiz a minha opção. Votei em D. Afonso Henriques, o primeiro Rei de Portugal. A forma como o escolhi foi bastante simples e até superficial. De todos os possíveis “candidatos”, qual deles, se não tivesse existido, alteraria de forma mais profunda o curso da nossa história? D. Afonso, filho de Henrique, I de Portugal. Sem ele, pura e simplesmente não teríamos nacionalidade. O que não significa que, mais tarde, outro não tivesse feito por isso. Mas a história não é a que queremos, mas a que temos.
Existem outros que deram um contributo indelével e que, por isso, devem ficar para sempre na nossa memória colectiva. Desde D. João II, que deu as bases ao seu primo e sucessor no trono, D. Manuel I, para empreender os Descobrimentos Portugueses. Entre tantos outros, destaco também o Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque. Um nome incontornável é Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e, mais tarde, quase no fim da sua vida, Marquês de Pombal.
Para o bem e para o mal, António de Oliveira Salazar, enquanto Ministro das Finanças ou Marcello Caetano, na qualidade de Professor e autor de Direito, merecem destaque. Também o General sem medo, Humberto Delgado, pela coragem e pelo desafio ao regime ditatorial, ou pela esperança, ainda que efémera, que representou.
O pós-25 de Abril não permite distanciamento, essencial para uma escolha sem tabus, limitações de ordem política ou pessoal. Por esse motivo, fico-me cronologicamente em Salgueiro Maia, pela coragem e pela humildade que teve no cumprimento do seu dever, logo saindo de cena, morrendo quase no esquecimento. Será certamente reabilitado no futuro, como tantos outros grandes portugueses.
Todos os nomes que referi, de tantos outros que poderiam ali constar, foram grandes, porque grandes foram os que lhes seguiram, os que os apoiaram ou simplesmente desafiaram e inspiraram.
A reflexão que fiz sobre este exercício de escolha dos “grandes portugueses”, fez-me recordar a falta de visão e o desinvestimento na Educação e na Formação Profissional. A capacidade de empreender que os portugueses demonstraram no último milénio quedou-se e entrou na “bruma da memória”, transformando-se numa espécie de mito, confortável e saudosista. É uma característica que vem sendo enterrada por toneladas de Euros de subsídios esbanjados. Na falta de um Ensino que acorde empreendedores, que os motive, que os molde e dê ferramentas para que, no futuro, possamos ser novamente grandes. Resta-nos a submissão metafórica da cauda da Europa. Provavelmente fica-nos bem.
Mas poderia ser pior. Muito pior. Para um País que saiu de uma ditadura que diluiu, condicionou e subdesenvolveu, durante décadas, o tecido produtivo, designadamente industrial, que não acompanhou o desenvolvimento tecnológico, que não apostou na formação básica dos recursos humanos, que não os preparou para o mercado de “aquém e além-mar” ou não soube perceber o mundo, o mercado global e até o “império”, como outros fizeram. Sobrevivemos a isto. Ultrapassar vai levar mais que uma geração!
CRIAR valor
Comentário publicado no Canallagos
Empreender, mais do que dinheiro, requer boas ideias, criatividade, perseverança e alguma dose de sorte. Naturalmente que não podemos pedir tudo ao Estado. O nosso tecido produtivo já está bastante dependente dos incentivos que os governos disponibilizam, que os fundos da união Europeia atribuem.
O Estado é, ainda hoje, o maior condicionador da actividade empresarial. As contas públicas “inspiram” a economia, quando deveria ser precisamente o inverso. E, pior que tudo, nem herdamos esta característica. Muito pelo contrário. Bastou 30 anos para conseguimos transformar a economia, ainda que corporativista, com as vicissitudes e condicionalismos decorrentes da ditadura, mas financeira e organizacionalmente independente dos poderes políticos, numa economia que escuta subservientemente o Governo. Tivemos 30 anos para melhorar a economia…
O País necessita construir uma economia que o governo ouça. A democracia também é isso. O dinheiro que está inscrito no Orçamento Geral do Estado não é de quem o gere, mas nosso, dos portugueses e dos que por cá residem e pagam impostos. Essa diferença deve ser assumida, desde logo, por todos. Não basta esticar a mão e pedir mais um subsídio para umas secretárias novas lá na sede da associação. Ou uns Euros para pintar a sede do clube de futebol. Não! É necessário procurar, ou pelo menos aspirar, a uma independência financeira. Seja no sector privado, seja no social!
Mas voltando ao “Empreender”, pois já me estou a afastar do tema. Escrevo este texto depois de ler que o Centro Regional para a Inovação do Algarve, uma parceria entre diversas entidades algarvias, apresentou com a Universidade do Algarve (que integra também o CRIA), o Instituto Politécnico de Setúbal, o Instituto Politécnico de Beja e o Município de Sines, uma proposta para a criação de um Centro de Incubação de Empresas de Base Tecnológica, em Sines. Esta infra-estrutura, a ser aprovada, permitirá a instalação de empresas de base tecnológica aos graduados destes estabelecimentos de ensino superior público.
Sabendo como os projectos estruturantes ou inovadores são difíceis de aprovar e requerem a intervenção de vários parceiros, até devido à necessidade de lóbi e de fazer face ao financiamento, decorrente das necessidades iniciais e de manutenção do projecto, não posso deixar de pensar que foi mais um investimento que a região poderia ter abraçado.
E depois os municípios esbanjam Euros nas associações, no futebol, etc.
Ser empreendedor é também apostar na diferença, no nicho. Espero que o País, e especialmente o Algarve, tenha capacidade de atrair empreendedores, de criar condições de instalação local e de promover sinergias. A diversificação da nossa economia regional depende disso. Neste momento, os recursos públicos, os nossos recursos, devem ser investidos com uma estratégia de promoção da criação de valor, de riqueza, de emprego. Só assim podemos aspirar a crescer como os outros Países europeus, não por causa (e abaixo) deles.
Comentário publicado no Canallagos
Empreender, mais do que dinheiro, requer boas ideias, criatividade, perseverança e alguma dose de sorte. Naturalmente que não podemos pedir tudo ao Estado. O nosso tecido produtivo já está bastante dependente dos incentivos que os governos disponibilizam, que os fundos da união Europeia atribuem.
O Estado é, ainda hoje, o maior condicionador da actividade empresarial. As contas públicas “inspiram” a economia, quando deveria ser precisamente o inverso. E, pior que tudo, nem herdamos esta característica. Muito pelo contrário. Bastou 30 anos para conseguimos transformar a economia, ainda que corporativista, com as vicissitudes e condicionalismos decorrentes da ditadura, mas financeira e organizacionalmente independente dos poderes políticos, numa economia que escuta subservientemente o Governo. Tivemos 30 anos para melhorar a economia…
O País necessita construir uma economia que o governo ouça. A democracia também é isso. O dinheiro que está inscrito no Orçamento Geral do Estado não é de quem o gere, mas nosso, dos portugueses e dos que por cá residem e pagam impostos. Essa diferença deve ser assumida, desde logo, por todos. Não basta esticar a mão e pedir mais um subsídio para umas secretárias novas lá na sede da associação. Ou uns Euros para pintar a sede do clube de futebol. Não! É necessário procurar, ou pelo menos aspirar, a uma independência financeira. Seja no sector privado, seja no social!
Mas voltando ao “Empreender”, pois já me estou a afastar do tema. Escrevo este texto depois de ler que o Centro Regional para a Inovação do Algarve, uma parceria entre diversas entidades algarvias, apresentou com a Universidade do Algarve (que integra também o CRIA), o Instituto Politécnico de Setúbal, o Instituto Politécnico de Beja e o Município de Sines, uma proposta para a criação de um Centro de Incubação de Empresas de Base Tecnológica, em Sines. Esta infra-estrutura, a ser aprovada, permitirá a instalação de empresas de base tecnológica aos graduados destes estabelecimentos de ensino superior público.
Sabendo como os projectos estruturantes ou inovadores são difíceis de aprovar e requerem a intervenção de vários parceiros, até devido à necessidade de lóbi e de fazer face ao financiamento, decorrente das necessidades iniciais e de manutenção do projecto, não posso deixar de pensar que foi mais um investimento que a região poderia ter abraçado.
E depois os municípios esbanjam Euros nas associações, no futebol, etc.
Ser empreendedor é também apostar na diferença, no nicho. Espero que o País, e especialmente o Algarve, tenha capacidade de atrair empreendedores, de criar condições de instalação local e de promover sinergias. A diversificação da nossa economia regional depende disso. Neste momento, os recursos públicos, os nossos recursos, devem ser investidos com uma estratégia de promoção da criação de valor, de riqueza, de emprego. Só assim podemos aspirar a crescer como os outros Países europeus, não por causa (e abaixo) deles.
2006-10-23
Recordei-me, nem sei bem porquê, de uma conversa que tive há uns tempos com um destacado comunista português. Falava-me da sua intervenção na clandestinidade, daquela parte que não é falada, do quotidiano e da vida espartana que levava, das “casas” por que ia passando, do perigo e ansiedade a que estava sujeito… enfim, da difícil vida que levou até ao 25 de Abril de 1974 e, depois disso, as melhorias significativas que viu nascer no País e algumas que viu morrer.
Escrevi um texto na semana passada, que só será publicado nesta, sobre (entre outras coisas) os grandes portugueses. Esqueci-me, não intencionalmente, de Álvaro Cunhal. Não referenciei este grande português. Ainda que não tenha sabido evoluir o PCP no pós-25 de Abril, faço-lhe justiça pelo seu contributo na organização e acção anti-fascista. Até porque é incontornável, não só como “resistente”, mas como artista, designadamente no desenho e nas letras.
Com este quadro de fundo, pensei também que o tempo acaba irremediavelmente por provocar evoluções... e erosões. Não somos hoje o mesmo Portugal de 1500, nem o de 1933 ou o de 1974 (ou 1975). Provavelmente muito distante daquilo que seremos em 2020.
Também as organizações são, no fundo, reflexo de quem, num dado momento, as representa. É indissociável o PCP de Álvaro Cunhal, o PPD de Sá Carneiro, o PSD de Cavaco Silva, o CDS de Amaro da Costa ou até Freitas do Amaral, assim como o PS de Mário Soares, o PPM de Gonçalo Ribeiro Telles, o PP de Paulo Portas, o Bloco de Louça, o PCTP/ MRPP de Arnaldo Matos ou de Garcia Pereira…
Esta lenga-lenga tem um propósito: para além de repor, ainda que antecipadamente, a justiça a “Manuel Tiago”, servir para relembrar que as organizações não são boas nem más. Depende de que as lidera. É, de resto, assim no resto… ou seja, nos governos, nos sindicatos, nos partidos políticos, nas organizações sem fins lucrativos, nas empresas, nos clubes de futebol, nas ordens e associações profissionais…
Escrevi um texto na semana passada, que só será publicado nesta, sobre (entre outras coisas) os grandes portugueses. Esqueci-me, não intencionalmente, de Álvaro Cunhal. Não referenciei este grande português. Ainda que não tenha sabido evoluir o PCP no pós-25 de Abril, faço-lhe justiça pelo seu contributo na organização e acção anti-fascista. Até porque é incontornável, não só como “resistente”, mas como artista, designadamente no desenho e nas letras.
Com este quadro de fundo, pensei também que o tempo acaba irremediavelmente por provocar evoluções... e erosões. Não somos hoje o mesmo Portugal de 1500, nem o de 1933 ou o de 1974 (ou 1975). Provavelmente muito distante daquilo que seremos em 2020.
Também as organizações são, no fundo, reflexo de quem, num dado momento, as representa. É indissociável o PCP de Álvaro Cunhal, o PPD de Sá Carneiro, o PSD de Cavaco Silva, o CDS de Amaro da Costa ou até Freitas do Amaral, assim como o PS de Mário Soares, o PPM de Gonçalo Ribeiro Telles, o PP de Paulo Portas, o Bloco de Louça, o PCTP/ MRPP de Arnaldo Matos ou de Garcia Pereira…
Esta lenga-lenga tem um propósito: para além de repor, ainda que antecipadamente, a justiça a “Manuel Tiago”, servir para relembrar que as organizações não são boas nem más. Depende de que as lidera. É, de resto, assim no resto… ou seja, nos governos, nos sindicatos, nos partidos políticos, nas organizações sem fins lucrativos, nas empresas, nos clubes de futebol, nas ordens e associações profissionais…
2006-10-18
Cidade Capital
Publicado no Região Sul
Portugal vive obcecado pela sua capital. Quando se fala de descentralização, esquecemo-nos que o centro do poder, hoje como ontem, reside lá. As sedes das principais empresas também, assim como os Ministérios. Lisboa é ainda a sede cultural do “reino”.
Ainda que esta distinção seja questionável, representa de certa forma a nossa resignação. Estamos cada vez mais assimétricos, ainda que estatisticamente os efeitos não sejam muito visíveis, mas estão lá.
É certo que Portugal tem apenas duas cidades dignas desse nome. Existem aglomerados com muitos habitantes, mas quase sem mais nada, como tantas cidades-dormitório, ou outras com (quase) tudo o resto, mas sem população em número relevante. Acaba por ser o corolário de um País pequeno e com décadas (ou mesmo séculos) sem uma estratégia demográfica.
Como fizeram os nossos antepassados? Perceberam as vilas e cidades, espalhadas pelo território, como fixadores de população, e, por essa via, da soberania. Assim foi com os Romanos, Visigodos, Muçulmanos, depois da fundação de Portugal e assim sucessivamente até aos nossos dias. Hoje as fronteiras estão seguras… mas a distribuição do rendimento (e da produção) provocam clivagens e secam uma parte do território. Basta comparar a população no interior com a apresentada há 30, 40 anos e percebe-se que ao mudarmos de objectivos, de tecnologia e de políticas, mudamos também a “paisagem” e a moldura demográfica. Com os resultados que estão à vista.
Os municípios também não souberam (ou não conseguiram) apostar em estratégias de promoção do seu território. Era (e é) necessário saber “vender” a imagem que o preço por metro quadrado é mais baixo, as cidades são menos congestionadas, com maior qualidade de vida, com reflexos na produtividade. E não acaba aqui... Até porque existem universidades e politécnicos, estradas e pontes… já que foi feito o esforço inicial, faça-se-lhes justiça e valorize-se esse investimento. Não basta construir uma piscina, um teatro ou um estádio de futebol. É necessário criar condições para a instalação de empresas, geradoras de emprego e inversoras da tendência de fuga dos quadros mais diferenciados.
Em pequeno número, a fixação de investimento, designadamente industrial, pode ter o efeito perverso de provocar uma excessiva dependência nas pequenas cidades. Veja-se do caso de Portalegre. Mas não será o único caminho possível? Em alternativa, fechamos o País periférico até às férias, termas ou qualquer outra necessidade? Até lá, fechamo-nos em Lisboa?
Depois existe a teoria dos acessos viários, da nossa razoável rede de infra-estruturas rodoviárias… cara, não só a factura inicial, como a manutenção e a utilização. Este investimento não está tanto ao serviço do desenvolvimento, mas para tornar o País mais acessível a Lisboa. Isto desafia, de certa forma, a putativa descentralização do Estado, ainda que muito do trabalho tenha sido empurrado para fora, as decisões mantêm-se na velha Metrópole do “Império”.
Nada tenho contra Lisboa. Considero-a uma das capitais mais bonitas e emblemáticas do “velho mundo”. É um destino turístico de excelência e tem tantos atractivos, que é incontornável. Representa um Portugal cosmopolita, moderno e diversificado. Mas não deve sorver Portugal. Não merecemos isso. Mas também nunca o soubemos exigir…
Publicado no Região Sul
Portugal vive obcecado pela sua capital. Quando se fala de descentralização, esquecemo-nos que o centro do poder, hoje como ontem, reside lá. As sedes das principais empresas também, assim como os Ministérios. Lisboa é ainda a sede cultural do “reino”.
Ainda que esta distinção seja questionável, representa de certa forma a nossa resignação. Estamos cada vez mais assimétricos, ainda que estatisticamente os efeitos não sejam muito visíveis, mas estão lá.
É certo que Portugal tem apenas duas cidades dignas desse nome. Existem aglomerados com muitos habitantes, mas quase sem mais nada, como tantas cidades-dormitório, ou outras com (quase) tudo o resto, mas sem população em número relevante. Acaba por ser o corolário de um País pequeno e com décadas (ou mesmo séculos) sem uma estratégia demográfica.
Como fizeram os nossos antepassados? Perceberam as vilas e cidades, espalhadas pelo território, como fixadores de população, e, por essa via, da soberania. Assim foi com os Romanos, Visigodos, Muçulmanos, depois da fundação de Portugal e assim sucessivamente até aos nossos dias. Hoje as fronteiras estão seguras… mas a distribuição do rendimento (e da produção) provocam clivagens e secam uma parte do território. Basta comparar a população no interior com a apresentada há 30, 40 anos e percebe-se que ao mudarmos de objectivos, de tecnologia e de políticas, mudamos também a “paisagem” e a moldura demográfica. Com os resultados que estão à vista.
Os municípios também não souberam (ou não conseguiram) apostar em estratégias de promoção do seu território. Era (e é) necessário saber “vender” a imagem que o preço por metro quadrado é mais baixo, as cidades são menos congestionadas, com maior qualidade de vida, com reflexos na produtividade. E não acaba aqui... Até porque existem universidades e politécnicos, estradas e pontes… já que foi feito o esforço inicial, faça-se-lhes justiça e valorize-se esse investimento. Não basta construir uma piscina, um teatro ou um estádio de futebol. É necessário criar condições para a instalação de empresas, geradoras de emprego e inversoras da tendência de fuga dos quadros mais diferenciados.
Em pequeno número, a fixação de investimento, designadamente industrial, pode ter o efeito perverso de provocar uma excessiva dependência nas pequenas cidades. Veja-se do caso de Portalegre. Mas não será o único caminho possível? Em alternativa, fechamos o País periférico até às férias, termas ou qualquer outra necessidade? Até lá, fechamo-nos em Lisboa?
Depois existe a teoria dos acessos viários, da nossa razoável rede de infra-estruturas rodoviárias… cara, não só a factura inicial, como a manutenção e a utilização. Este investimento não está tanto ao serviço do desenvolvimento, mas para tornar o País mais acessível a Lisboa. Isto desafia, de certa forma, a putativa descentralização do Estado, ainda que muito do trabalho tenha sido empurrado para fora, as decisões mantêm-se na velha Metrópole do “Império”.
Nada tenho contra Lisboa. Considero-a uma das capitais mais bonitas e emblemáticas do “velho mundo”. É um destino turístico de excelência e tem tantos atractivos, que é incontornável. Representa um Portugal cosmopolita, moderno e diversificado. Mas não deve sorver Portugal. Não merecemos isso. Mas também nunca o soubemos exigir…
2006-10-09
911
Publicado no Jornal do Algarve
A morte encravada e fundida no aço do WTC será para sempre recordada como o epitáfio de um estilo de vida que tem caracterizado a tradicional sociedade Ocidental, alicerçada na liberdade de expressão, de movimento e, acima de tudo, na assunção de que o “inimigo” está (e ficará) além fronteiras, a uma distância segura dos contribuintes, à distância de uma simples mudança de canal de televisão.
As sociedades Ocidentais deixaram de ficar no estado de aborrecimento absoluto e impoluto. Quem sabe se a próxima bomba, o próximo avião, o próximo agente químico, o próximo vírus, não está à nossa porta, na nossa esquina, no nosso quintal!
A relevância dos ataques desferidos com três aviões a 9 de Setembro de 2001, que destruíram o emblemático WTC e uma parte do Pentágono, não esteve nos milhares de mortos e de prejuízos que geraram. Esteve essencialmente na mensagem de que uma pequena organização tem capacidade de infligir destruição no coração do poder económico e militar da principal super potência… terá escapado, por alguma sorte, o poder político… se é que foi, de facto poupado! Foram castigados os alicerces fundamentais e basilares da sociedade que conhecemos.
Não acredito que estejamos a entrar numa guerra religiosa. Qualquer confissão terá como base primordial a paz e o entendimento, até a tolerância. O fanatismo não representa as religiões, nem lhes deverá ser associado. Pode ser gerado, por princípio, apoiado no património da fé, mas depressa se autonomiza e a renega, pela destruição.
O terrorismo não se combate com respostas militares convencionais. Não existe um território de origem, com uma base de sustentação política. Não é possível “punir” um País; pode haver necessidade política de o fazer, mas nunca trará resultados práticos. Erradica-se o terrorismo com desenvolvimento social, político e económico. Ora isso está bastante distante no Médio Oriente, ou do mundo Islâmico.
Revi nestes últimos dias algumas imagens aterradoras, como a centena de pessoas que optou pelo suicídio, ante a perspectiva de uma morte lenta. Deixou-me na altura, como hoje, singelamente horrorizado. Essa decisão, se nela reflectirmos, simbolizou o fim da esperança de salvação. Entraram no vazio, ainda em vida. Do modo mais duro!
Sem remédios na gaveta, esta doença do século XXI requer doses industriais de informação e da sua partilha, de pesquisa, de construção de cenários e planeamento de medidas para evitar ou conter riscos. Em todos os Países, os serviços secretos, de informação e segurança, enfim, a “espionagem”, que regrediu naturalmente com o fim da Guerra-fria, voltou a estar na ordem do dia e dos orçamentos de Governo. Muito mais que exércitos regulares, preparados para conflitos convencionais, os Países vão apostar na obtenção de informação e em unidades de elite. As organizações terroristas não serão vencidas com o envio de milhares de soldados para o terreno, mas com o investimento em tecnologia, em “inteligência” e na obtenção de informação pertinente.
Este é o desafio que nos foi lançado. Este é o caminho que vamos percorrer.
Muito ficou por responder sobre os ataques de 11 de Setembro, algumas coincidências e teorias da conspiração. Mas ficará sempre uma questão no ar: qual será o próximo alvo?
Publicado no Jornal do Algarve
A morte encravada e fundida no aço do WTC será para sempre recordada como o epitáfio de um estilo de vida que tem caracterizado a tradicional sociedade Ocidental, alicerçada na liberdade de expressão, de movimento e, acima de tudo, na assunção de que o “inimigo” está (e ficará) além fronteiras, a uma distância segura dos contribuintes, à distância de uma simples mudança de canal de televisão.
As sociedades Ocidentais deixaram de ficar no estado de aborrecimento absoluto e impoluto. Quem sabe se a próxima bomba, o próximo avião, o próximo agente químico, o próximo vírus, não está à nossa porta, na nossa esquina, no nosso quintal!
A relevância dos ataques desferidos com três aviões a 9 de Setembro de 2001, que destruíram o emblemático WTC e uma parte do Pentágono, não esteve nos milhares de mortos e de prejuízos que geraram. Esteve essencialmente na mensagem de que uma pequena organização tem capacidade de infligir destruição no coração do poder económico e militar da principal super potência… terá escapado, por alguma sorte, o poder político… se é que foi, de facto poupado! Foram castigados os alicerces fundamentais e basilares da sociedade que conhecemos.
Não acredito que estejamos a entrar numa guerra religiosa. Qualquer confissão terá como base primordial a paz e o entendimento, até a tolerância. O fanatismo não representa as religiões, nem lhes deverá ser associado. Pode ser gerado, por princípio, apoiado no património da fé, mas depressa se autonomiza e a renega, pela destruição.
O terrorismo não se combate com respostas militares convencionais. Não existe um território de origem, com uma base de sustentação política. Não é possível “punir” um País; pode haver necessidade política de o fazer, mas nunca trará resultados práticos. Erradica-se o terrorismo com desenvolvimento social, político e económico. Ora isso está bastante distante no Médio Oriente, ou do mundo Islâmico.
Revi nestes últimos dias algumas imagens aterradoras, como a centena de pessoas que optou pelo suicídio, ante a perspectiva de uma morte lenta. Deixou-me na altura, como hoje, singelamente horrorizado. Essa decisão, se nela reflectirmos, simbolizou o fim da esperança de salvação. Entraram no vazio, ainda em vida. Do modo mais duro!
Sem remédios na gaveta, esta doença do século XXI requer doses industriais de informação e da sua partilha, de pesquisa, de construção de cenários e planeamento de medidas para evitar ou conter riscos. Em todos os Países, os serviços secretos, de informação e segurança, enfim, a “espionagem”, que regrediu naturalmente com o fim da Guerra-fria, voltou a estar na ordem do dia e dos orçamentos de Governo. Muito mais que exércitos regulares, preparados para conflitos convencionais, os Países vão apostar na obtenção de informação e em unidades de elite. As organizações terroristas não serão vencidas com o envio de milhares de soldados para o terreno, mas com o investimento em tecnologia, em “inteligência” e na obtenção de informação pertinente.
Este é o desafio que nos foi lançado. Este é o caminho que vamos percorrer.
Muito ficou por responder sobre os ataques de 11 de Setembro, algumas coincidências e teorias da conspiração. Mas ficará sempre uma questão no ar: qual será o próximo alvo?
2006-09-28
Praxe
Não sou contra a praxe. É antes que tudo um ritual de integração. Noutros tempos fui praxado e praxei. Tive provavelmente a sorte de ter tido uma praxe cheia de brincadeiras e sem qualquer momento menos próprio.
Esta tarde, tinha acabado de entrar no meu carro quando assinto a um grupo de estudantes (salvo erro de Sociologia, pelo menos era a inscrição na testa de um caloiro) que humilhava incessante e reiteradamente alguns colegas, especialmente um deles. Estupidamente, acrescento.
Sou absolutamente contra qualquer forma de praxe que envolva a humilhação. Existem formas de brincar que servem o propósito de integrar os colegas recém chegados e estes têm sempre o direito de a recusar. Existem dois pré-requisitos para organizar uma praxe: inteligência e criatividade. Nenhuma destas esteve presente no que presenciei.
Estas formas de praxe são uma vergonha para a comunidade académica. Espero que quem de direito esteja mais atento e saiba corrigir estas más práticas. Estamos perante estudantes do ensino superior que, não por ser superior, mas por ser mais diferenciado, requer mais do que simplesmente pertencer. É necessário saber estar e representar, neste caso, a Universidade do Algarve. Caso contrário, estão a desprestigiar uma instituição. Aquela que lhes servirá de cartão de visita.
Não sou contra a praxe. É antes que tudo um ritual de integração. Noutros tempos fui praxado e praxei. Tive provavelmente a sorte de ter tido uma praxe cheia de brincadeiras e sem qualquer momento menos próprio.
Esta tarde, tinha acabado de entrar no meu carro quando assinto a um grupo de estudantes (salvo erro de Sociologia, pelo menos era a inscrição na testa de um caloiro) que humilhava incessante e reiteradamente alguns colegas, especialmente um deles. Estupidamente, acrescento.
Sou absolutamente contra qualquer forma de praxe que envolva a humilhação. Existem formas de brincar que servem o propósito de integrar os colegas recém chegados e estes têm sempre o direito de a recusar. Existem dois pré-requisitos para organizar uma praxe: inteligência e criatividade. Nenhuma destas esteve presente no que presenciei.
Estas formas de praxe são uma vergonha para a comunidade académica. Espero que quem de direito esteja mais atento e saiba corrigir estas más práticas. Estamos perante estudantes do ensino superior que, não por ser superior, mas por ser mais diferenciado, requer mais do que simplesmente pertencer. É necessário saber estar e representar, neste caso, a Universidade do Algarve. Caso contrário, estão a desprestigiar uma instituição. Aquela que lhes servirá de cartão de visita.
2006-09-19
Expliquem-me lá como se fosse muito burro:
- Troca de seringas nas prisões?!? O princípio é interessante, mas será que ninguém se questiona sobre o conteúdo das seringas… que é, por acaso, ilegal!!! Como é que num ambiente seguro, controlado e “policiado” existem e subsistem toxicodependentes?
O problema não é o consumo em si, não quero ser moralista, cada um que decida os riscos que quer correr… mas se é ilegal, como é que o Estado aceita e “facilita” as seringas nos estabelecimentos prisionais?
- Troca de seringas nas prisões?!? O princípio é interessante, mas será que ninguém se questiona sobre o conteúdo das seringas… que é, por acaso, ilegal!!! Como é que num ambiente seguro, controlado e “policiado” existem e subsistem toxicodependentes?
O problema não é o consumo em si, não quero ser moralista, cada um que decida os riscos que quer correr… mas se é ilegal, como é que o Estado aceita e “facilita” as seringas nos estabelecimentos prisionais?
2006-09-18
Ai Portugal, Portugal!
Publicado no Região Sul, aqui
Como é que está Portugal em 2006? Melhor que em 2004? Ou do que 1999?
Os fundos comunitários serviram para alavancar a nossa economia? Os serviços públicos são hoje mais eficientes que em 2000? Os técnicoprofissionais, os bacharéis, os licenciados, os mestres, os doutores estão mais preparados que na década de 90? Os cursos correspondem às necessidades do mercado? Os professores têm mais formação específica e pedagógica, i.e. estão mais preparados para leccionar que na década de 80? A nossa formação profissional é mais consequente que em 1991?
Os empresários têm mais formação que há 15 anos? O nosso tecido produtivo está preparado para a globalização? Para o embate de produtos mais baratos, especialmente do Oriente, cada vez mais sofisticados e com tendência para melhorar?
O comércio tradicional está preparado para adaptar os seus horários às necessidades dos consumidores? Nos últimos 10 anos prepararam-se para sobreviver aos grandes grupos de distribuição retalhista?
Os Governos já perceberam que gerir para ciclos políticos apenas adia problemas e compromete reformas? Existe hoje uma estratégia ou política de recursos humanos na administração pública?
Os municípios têm noção real do impacto que têm na economia? Que o seu endividamento compromete o país? Que cresceram demasiado? Muito acima das necessidades e, especialmente, das possibilidades? Hoje existe mais/ melhor planeamento urbano? Mais coerente e informado com os erros do passado?
São tantas as questões que me assolam, todas com resposta mais ou menos fácil, com as devidas variações, conforme o espectro político de cada um e das datas apresentadas.
Portugal é hoje um país mais aberto, disso não tenho dúvidas. Em menos de 30 anos transformaram-se mentalidades, reduziram-se tabus, alguns mitos e dependências religiosas. Foram 30 anos de aprendizagem com a abertura ao mundo. Constante e determinada!
Aprendemos tudo: o bom e o mau. Aprendemos também o significado de “dependência”: dos subsídios, do Estado que tudo apoia, que se tornou patrão, depois arrendatário, finalmente liquidatário e depois moderador. Mas sempre muito presente e paternalista.
Relegamos para segundo plano algumas características que pessoalmente julgo estarem impregnadas no nosso ADN, enquanto nação. Não me refiro ao famigerado epíteto de “desenrascado”, mas à capacidade de empreender e, contra as adversidades, avançar até ao sucesso. Esta característica foi sendo abafada pelo tempo… Pelo cinzentismo e condicionamento do Estado Novo.
Mas isto já passou!
Hoje queremos pagar menos impostos, queremos ganhar mais, queremos ter mais estradas, mais rápidas, melhores escolas, mais teatros, bibliotecas, piscinas, estádios, queremos ensino e saúde gratuitos, queremos, queremos, queremos… dá, dá, dá… tudo isto é necessário. Mas deve ser conseguido pelo aumento do produto, pelo aumento da produção de todos nós: profissionais liberais, empresários, trabalhadores dependentes, reformados… até dos estudantes e dos desempregados!
A nossa maior pobreza não está na falta de recursos, mas na falta de vontade de empreender.
Publicado no Região Sul, aqui
Como é que está Portugal em 2006? Melhor que em 2004? Ou do que 1999?
Os fundos comunitários serviram para alavancar a nossa economia? Os serviços públicos são hoje mais eficientes que em 2000? Os técnicoprofissionais, os bacharéis, os licenciados, os mestres, os doutores estão mais preparados que na década de 90? Os cursos correspondem às necessidades do mercado? Os professores têm mais formação específica e pedagógica, i.e. estão mais preparados para leccionar que na década de 80? A nossa formação profissional é mais consequente que em 1991?
Os empresários têm mais formação que há 15 anos? O nosso tecido produtivo está preparado para a globalização? Para o embate de produtos mais baratos, especialmente do Oriente, cada vez mais sofisticados e com tendência para melhorar?
O comércio tradicional está preparado para adaptar os seus horários às necessidades dos consumidores? Nos últimos 10 anos prepararam-se para sobreviver aos grandes grupos de distribuição retalhista?
Os Governos já perceberam que gerir para ciclos políticos apenas adia problemas e compromete reformas? Existe hoje uma estratégia ou política de recursos humanos na administração pública?
Os municípios têm noção real do impacto que têm na economia? Que o seu endividamento compromete o país? Que cresceram demasiado? Muito acima das necessidades e, especialmente, das possibilidades? Hoje existe mais/ melhor planeamento urbano? Mais coerente e informado com os erros do passado?
São tantas as questões que me assolam, todas com resposta mais ou menos fácil, com as devidas variações, conforme o espectro político de cada um e das datas apresentadas.
Portugal é hoje um país mais aberto, disso não tenho dúvidas. Em menos de 30 anos transformaram-se mentalidades, reduziram-se tabus, alguns mitos e dependências religiosas. Foram 30 anos de aprendizagem com a abertura ao mundo. Constante e determinada!
Aprendemos tudo: o bom e o mau. Aprendemos também o significado de “dependência”: dos subsídios, do Estado que tudo apoia, que se tornou patrão, depois arrendatário, finalmente liquidatário e depois moderador. Mas sempre muito presente e paternalista.
Relegamos para segundo plano algumas características que pessoalmente julgo estarem impregnadas no nosso ADN, enquanto nação. Não me refiro ao famigerado epíteto de “desenrascado”, mas à capacidade de empreender e, contra as adversidades, avançar até ao sucesso. Esta característica foi sendo abafada pelo tempo… Pelo cinzentismo e condicionamento do Estado Novo.
Mas isto já passou!
Hoje queremos pagar menos impostos, queremos ganhar mais, queremos ter mais estradas, mais rápidas, melhores escolas, mais teatros, bibliotecas, piscinas, estádios, queremos ensino e saúde gratuitos, queremos, queremos, queremos… dá, dá, dá… tudo isto é necessário. Mas deve ser conseguido pelo aumento do produto, pelo aumento da produção de todos nós: profissionais liberais, empresários, trabalhadores dependentes, reformados… até dos estudantes e dos desempregados!
A nossa maior pobreza não está na falta de recursos, mas na falta de vontade de empreender.
2006-09-13
As Grutas da Ponta da Piedade
publicado no Magazine do Algarve
Recortando a costa lacobrigense, descobrindo inúmeras praias e vistas fantásticas, este passeio está estruturado para mostrar, em cerca de 30 a 40 minutos, num pequeno barco a motor, as grutas e cavernas escavadas e encravadas pela natureza na rocha calcária da Ponta da Piedade.
A partida é feita a partir de um pequeno cais existente na foz da ribeira de Bensafrim, na avenida principal da cidade, a poucas centenas de metros da Marina de Lagos.
O “percurso marítimo” vale a pena. Os tons da água translúcida mudam de verde turquesa para o azul cristal, assim como das formações rochosas, dos castanhos ao ocre. Ali encontramos parte importante do património natural do concelho de Lagos, mas também permite vislumbrar parte do importante património histórico desta cidade secular.
Passamos junto ao Forte Ponta da Bandeira, construído nos finais do século XVII para proteger a entrada marítima da cidade, com uma intervenção em 1960, aquando da construção da Avenida dos Descobrimentos, onde foram acrescentadas as 4 guaritas. Avista-se também a Porta de S. Gonçalo, que figura no Brasão da Cidade, assim como os panos de muralhas que cercavam o burgo. A saída da ribeira é feita por entre dois pequenos faróis, o vermelho para dar bombordo e o verde para estibordo. Entramos pelo Atlântico adentro. O mar é normalmente calmo nesta zona. O horizonte é imenso e inspirador…
Passamos pela Praia da Solaria (e do cais com o mesmo nome), depois pela Batata (que ganhou este nome porque os militares jogavam as cascas das batatas aí, quando não se usava ir à praia). Depois a Praias dos Estudantes, Homens e Pinhão, onde existe vestígios de um forte, destruído pelo terramoto de 1755, resta apenas uma parede de pedra… tudo o resto ruiu. Prosseguimos pelas Praias dos Nudistas, D. Ana, Camilo e Canavial.
Depois de “curvar” a ponta, influência do mar do norte, o Atlântico apresenta-se mais picado, mas estava suficiente calmo para prosseguir viagem. Passamos ainda por um pequeno areal, avistando ao fundo a Praia do Porto de Mós. Regressámos.
Existe alguma desorganização nestas rotas, tantas que são as embarcações que exploram este recurso turístico. Embora haja já algum apoio em terra, as saídas não são sincronizadas, o que provoca pequenos “engarrafamentos” na entrada de certas grutas. Não deixa, todavia, de conferir algum colorido.
Deixo também uma nota para o facto de existir a possibilidade de alugar caiaques e fazer esta aventura de forma mais ecológica e desportiva, todavia, sem o benefício das explicações dos experientes barqueiros, que nos vão mostrando figuras de animais e de outros elementos, que a natureza foi “esculpindo” na rocha.
Existe um túnel construído na rocha, que liga algumas destas praias entre si. Infelizmente, com a degradação provocada pela falta de manutenção e pela acção do mar, já não se encontra em condições de utilização plena. É pena que as entidades municipais, que devem defender o património da cidade, tenham descurado sucessivamente este recurso. Impõe-se, na minha opinião, não só a recuperação do túnel/ percurso pedestre, como, por que não, o seu alargamento até onde fosse tecnicamente possível… até à Praia do Porto de Mós, ou mesmo à Praia da Luz. É certo que se trata de uma obra complicada, mas seria um circuito certamente bastante utilizado e potenciador do conhecimento e usufruto desta parte da costa.
Afinal, há muito mais que praia no Algarve…
publicado no Magazine do Algarve
Recortando a costa lacobrigense, descobrindo inúmeras praias e vistas fantásticas, este passeio está estruturado para mostrar, em cerca de 30 a 40 minutos, num pequeno barco a motor, as grutas e cavernas escavadas e encravadas pela natureza na rocha calcária da Ponta da Piedade.
A partida é feita a partir de um pequeno cais existente na foz da ribeira de Bensafrim, na avenida principal da cidade, a poucas centenas de metros da Marina de Lagos.
O “percurso marítimo” vale a pena. Os tons da água translúcida mudam de verde turquesa para o azul cristal, assim como das formações rochosas, dos castanhos ao ocre. Ali encontramos parte importante do património natural do concelho de Lagos, mas também permite vislumbrar parte do importante património histórico desta cidade secular.
Passamos junto ao Forte Ponta da Bandeira, construído nos finais do século XVII para proteger a entrada marítima da cidade, com uma intervenção em 1960, aquando da construção da Avenida dos Descobrimentos, onde foram acrescentadas as 4 guaritas. Avista-se também a Porta de S. Gonçalo, que figura no Brasão da Cidade, assim como os panos de muralhas que cercavam o burgo. A saída da ribeira é feita por entre dois pequenos faróis, o vermelho para dar bombordo e o verde para estibordo. Entramos pelo Atlântico adentro. O mar é normalmente calmo nesta zona. O horizonte é imenso e inspirador…
Passamos pela Praia da Solaria (e do cais com o mesmo nome), depois pela Batata (que ganhou este nome porque os militares jogavam as cascas das batatas aí, quando não se usava ir à praia). Depois a Praias dos Estudantes, Homens e Pinhão, onde existe vestígios de um forte, destruído pelo terramoto de 1755, resta apenas uma parede de pedra… tudo o resto ruiu. Prosseguimos pelas Praias dos Nudistas, D. Ana, Camilo e Canavial.
Depois de “curvar” a ponta, influência do mar do norte, o Atlântico apresenta-se mais picado, mas estava suficiente calmo para prosseguir viagem. Passamos ainda por um pequeno areal, avistando ao fundo a Praia do Porto de Mós. Regressámos.
Existe alguma desorganização nestas rotas, tantas que são as embarcações que exploram este recurso turístico. Embora haja já algum apoio em terra, as saídas não são sincronizadas, o que provoca pequenos “engarrafamentos” na entrada de certas grutas. Não deixa, todavia, de conferir algum colorido.
Deixo também uma nota para o facto de existir a possibilidade de alugar caiaques e fazer esta aventura de forma mais ecológica e desportiva, todavia, sem o benefício das explicações dos experientes barqueiros, que nos vão mostrando figuras de animais e de outros elementos, que a natureza foi “esculpindo” na rocha.
Existe um túnel construído na rocha, que liga algumas destas praias entre si. Infelizmente, com a degradação provocada pela falta de manutenção e pela acção do mar, já não se encontra em condições de utilização plena. É pena que as entidades municipais, que devem defender o património da cidade, tenham descurado sucessivamente este recurso. Impõe-se, na minha opinião, não só a recuperação do túnel/ percurso pedestre, como, por que não, o seu alargamento até onde fosse tecnicamente possível… até à Praia do Porto de Mós, ou mesmo à Praia da Luz. É certo que se trata de uma obra complicada, mas seria um circuito certamente bastante utilizado e potenciador do conhecimento e usufruto desta parte da costa.
Afinal, há muito mais que praia no Algarve…
2006-08-22
Minas de São Domingos
Por Jorge Lami Leal
Publicado no Região Sul
Uma paisagem fora do comum. Uma praia fluvial inusitada. Uma gastronomia de base rural e tradicional. Um local esquecido, distante do buliço urbano. Horas e mais horas de sol ao longo do ano. Várias tapadas com água a temperatura convidativa para um mergulho ou um passeio de canoa. Alojamento para todos os gostos.
Assim se define um destino de férias em estruturação… a seu tempo, este será um destino incontornável na “região” do Baixo Alentejo e Nordeste Algarvio.
A poucos quilómetros de Mértola, surge, bem na fronteira com Espanha, as antigas Minas de São Domingos, local de onde, durante cerca de 100 anos, foram extraídas milhões de toneladas de minério, importante fonte de receitas.
As minas foram exploradas inicialmente pelos Romanos. Foram redescobertas a meio do século XIX e laborou até metade do século XX, concessionadas a uma empresa inglesa. Para ficar com uma ideia da importância das minas, James Mason, um dos sócios da empresa, recebeu títulos nobiliárquicos de D. Luís e D. Carlos, designadamente Barão do Pomarão, Visconde de Mason de São Domingos e Conde do Pomarão.
Existem vários núcleos habitacionais, que resultam das habitações construídas para os trabalhadores e famílias, que vinham um pouco de todo o Alentejo e Algarve, para trabalhar as minas. Existe ainda um núcleo com casas mais espaçosas, e até um cemitério, para os encarregados ingleses. Hoje são maioritariamente casas de férias e residências permanentes da população local.
Nos últimos 4 anos, o esforço de requalificação da restauração e da hotelaria, assim como a criação de percursos e sinalética interpretativa é evidente.
As gentes desta terra ainda hoje cultivam o “saber receber”, um dos atractivos desta região.
Sugestão de percursos:
- Pulo do Lobo
Este local ganhou alguma exposição quando o Prof. Cavaco Silva decidiu fazer aí um retiro, que catapultou o “Pulo do Lobo” em toda a comunicação social nacional. A paisagem rude, o caudal de água e a geologia recortada das margens garantem uma visita incontornável.
- Minas
Partindo do campo de futebol, passando pela antiga entrada na mina, acedemos a uma lagoa de águas pretas, com texturas impossíveis de descrever; segue-se pela estrada de terra batida, onde outrora foi construída a primeira linha-férrea portuguesa, das minas ao porto do Pomarão, e segue-se por entre quilómetros de terra ocre, preta, amarela e outras. Em certos sítios, sentimo-nos num filme de ficção científica, tal é a paleta de cores e os edifícios que integravam a mina.
- Pomarão
Aqui, onde o rio Guadiana parece descansar, podemos aproveitar novamente a hospitalidade das gentes e a oportunidade para admirar a paisagem impar e serena. Um pequeno povoado no fundo de uma escarpa íngreme e solene. Aqui o tempo corre devagar.
Por Jorge Lami Leal
Publicado no Região Sul
Uma paisagem fora do comum. Uma praia fluvial inusitada. Uma gastronomia de base rural e tradicional. Um local esquecido, distante do buliço urbano. Horas e mais horas de sol ao longo do ano. Várias tapadas com água a temperatura convidativa para um mergulho ou um passeio de canoa. Alojamento para todos os gostos.
Assim se define um destino de férias em estruturação… a seu tempo, este será um destino incontornável na “região” do Baixo Alentejo e Nordeste Algarvio.
A poucos quilómetros de Mértola, surge, bem na fronteira com Espanha, as antigas Minas de São Domingos, local de onde, durante cerca de 100 anos, foram extraídas milhões de toneladas de minério, importante fonte de receitas.
As minas foram exploradas inicialmente pelos Romanos. Foram redescobertas a meio do século XIX e laborou até metade do século XX, concessionadas a uma empresa inglesa. Para ficar com uma ideia da importância das minas, James Mason, um dos sócios da empresa, recebeu títulos nobiliárquicos de D. Luís e D. Carlos, designadamente Barão do Pomarão, Visconde de Mason de São Domingos e Conde do Pomarão.
Existem vários núcleos habitacionais, que resultam das habitações construídas para os trabalhadores e famílias, que vinham um pouco de todo o Alentejo e Algarve, para trabalhar as minas. Existe ainda um núcleo com casas mais espaçosas, e até um cemitério, para os encarregados ingleses. Hoje são maioritariamente casas de férias e residências permanentes da população local.
Nos últimos 4 anos, o esforço de requalificação da restauração e da hotelaria, assim como a criação de percursos e sinalética interpretativa é evidente.
As gentes desta terra ainda hoje cultivam o “saber receber”, um dos atractivos desta região.
Sugestão de percursos:
- Pulo do Lobo
Este local ganhou alguma exposição quando o Prof. Cavaco Silva decidiu fazer aí um retiro, que catapultou o “Pulo do Lobo” em toda a comunicação social nacional. A paisagem rude, o caudal de água e a geologia recortada das margens garantem uma visita incontornável.
- Minas
Partindo do campo de futebol, passando pela antiga entrada na mina, acedemos a uma lagoa de águas pretas, com texturas impossíveis de descrever; segue-se pela estrada de terra batida, onde outrora foi construída a primeira linha-férrea portuguesa, das minas ao porto do Pomarão, e segue-se por entre quilómetros de terra ocre, preta, amarela e outras. Em certos sítios, sentimo-nos num filme de ficção científica, tal é a paleta de cores e os edifícios que integravam a mina.
- Pomarão
Aqui, onde o rio Guadiana parece descansar, podemos aproveitar novamente a hospitalidade das gentes e a oportunidade para admirar a paisagem impar e serena. Um pequeno povoado no fundo de uma escarpa íngreme e solene. Aqui o tempo corre devagar.
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