2007-02-01

Sem Grandes Portugueses?
Publicado no Região Sul

Estão “escolhidos” os 100 Grandes Portugueses. Nos 10 primeiros, lá estão, ombro-a-ombro, Salazar e Cunhal. Tanto um como o outro merecedores de figurarem num lote mais alargado… mas não nos 10 primeiros. Mas esta é apenas a minha opinião. Enfim, a escolha está feita e foi auditada pela PricewaterhouseCoopers. Foi a escolha de quem quis votar. Vale o que vale. A RTP conclui assim a primeira parte do seu programa “Os Grandes Portugueses”.

Do lote das 100 personalidades, algumas são de presença questionável, desproporcionada até. São riscos que se correm neste tipo de concursos. Misturar “popularidade” com “feitos”. Até fiquei surpreendido por não existir mais “entulho” entre os nomeados.

Álvaro Cunhal não deixa ninguém indiferente, até um conservador não terá problemas em aceitar que foi um dos homens-chave no combate contra o Estado Novo. Mesmo que não tenha sabido ou conseguido evoluir com o Portugal pós revolucionário, não deixa de ter o seu lugar nos “Grandes Portugueses”. O mesmo para Otelo Saraiva de Carvalho, que também lá está por mérito, apesar do que fez depois. Ter liderado e operacionalizado a revolução de Abril é feito suficiente para não ser esquecido. É que muitas vezes teimamos em considerar a média do que se fez. Somos precisamente o somatório de tudo o que fomos e fizemos, de bom e de mau. Mas devemos destacar, ainda assim, as grandes contribuições.

Voltando a António de Oliveira Salazar, julgo que muitos portugueses ficaram estupefactos quando ouviram o nome do antigo ditador. Especialmente por ter ficado nos 10 primeiros. Mais os que viveram esse período, do que os outros, admito. Faz-me pensar o que diriam os portugueses do século XVIII ao lerem o nome de Sebastião José de Carvalho e Melo!? Não deixa de ser um exercício de reflexão interessante tentar perceber as razões de tal escolha, as motivações, tanto quando for possível extrapolar, especular, teorizar, etc.

Salazar ainda representa uma certa portugalidade envergonhada, pouco afoita aos riscos, tímida e cinzenta. Até atemorizada e pia. É ainda o governante do “Portugal dos pequeninos” que teimamos em soluçar, não olhando para a frente. Considero-o também uma metáfora da nossa tentativa colectiva de esquecer o passado, gorada pela força que fazemos. Fechou-se o ditador no sótão das memórias envergonhadas. Estará por isso sempre presente, ainda que recalcado… pelo menos enquanto não o desprendermos. É necessário esforço para conseguir chegar mais além. Os espanhóis já ultrapassaram Franco, os alemães Hitler, os italianos Mussolini, os Russos Estaline, etc.

Portugal, sem grandes portugueses? Precisamente o contrário. Séculos de história, de conquistas, concessões, criação, invenção, empreendedorismo. O País foi moldado por milhares de personalidades que nos deram a identidade que temos, assim como tantos outros anónimos. Também fomos feitos de pilhagem, massacres, ódios e delírios… tudo isto é Portugal!

Sou português por nascimento, mas muito mais por opção. Este concurso será esquecido, mas espero que tenha tido o mérito de fazer recordar a cepa de onde viemos. Os nossos heróis, os nossos antepassados, os nossos contemporâneos, enfim, aqueles que se destacaram… e foram tantos.

2007-01-30

Bom ano 2007 para todos os internautas.

2007-01-24

Tem uma moedinha!?!
Publicado no Jornal do Algarve

As cidades têm normalmente necessidades de estacionamento. Umas mais, umas muito mais. Por falta de planeamento, de visão integrada e estratégica, de uma política urbanística, enfim, por tantos motivos e mais uns quantos, as cidades foram crescendo, mais intensamente ao longo dos últimos 40 anos, sem que se fossem criando estacionamentos, vias de comunicação com dimensões razoáveis, etc. Piora nos centros históricos, onde tal não é muitas vezes viável, pelo menos sem destruir parte do património construído que os distingue e valoriza.

A colocação de parquímetros permite regular o “mercado”. Sabendo que a oferta de espaços de estacionamento é inferior à procura, especialmente a procura por períodos de curta duração e em certos horários, considero uma forma eficiente de colmatar o problema e promover alguma rotação nos espaços. Devem existir no entanto, tanto quanto possível, alternativas com uma distância aceitável, quer para os residentes, quer para os que trabalham nas zonas adstritas aos parquímetros, que necessitam deixar o carro por períodos de tempo mais prolongados e com regularidade.

O Município de Faro aumentou recentemente a “cobertura” de parquímetros na zona central e comercial da cidade – e bem, entenda-se –. Não disponho de dados objectivos para perceber se esta acção trouxe externalidades positivas ao comércio local, que deveria ser uma das preocupações e até uma das justificações mais fortes para esta política, mas julgo que pelo menos teve a vantagem de facilitar um pouco o estacionamento para quem pretende apenas tratar de um assunto ou fazer uma compra rápida.

Uma putativa externalidade positiva seria a redução ou “extinção” dos arrumadores. Ainda não foi desta que foram destituídos das suas “funções”. Esta verdadeira praga urbana dos tempos modernos, que baseia o seu rendimento na ameaça latente do carro aparecer riscado ou danificado de qualquer outra forma, continuam a desenvolver impunemente a sua “actividade”. Diga-se que o tal rendimento é “livre” de impostos (!?!) e tantas vezes serve para financiar o consumo de estupefacientes! É certo que desaparecem quando os fiscais ou a polícia estão no terreno, mas logo retornam às suas “concessões”. Mesmo quando existem parquímetros, lá estão eles... Um dos locais onde esta situação ocorre, que considero mais escandaloso, é nas imediações do Hospital Distrital de Faro.

Será que ninguém com responsabilidades, designadamente na segurança pública, governo civil ou no município, quer tomar alguma iniciativa no sentido de terminar com esta prática, que em poucos anos alastrou pela baixa e dá uma péssima imagem da capital do distrito?

Outra situação que me surpreendeu negativamente foi quando estacionei o carro, num Sábado de manhã, para tratar de um assunto a escassos 100 metros, prevendo demorar 5 ou 10 minutos (demorei menos!) e fui obrigado a “comprar” 30 minutos de tempo, pois existe um tempo mínimo a cumprir. Mas enfim, pelo menos consegui estacionar, embora não consiga deixar de pensar que é quase um roubo…

2006-12-29

É a cultura…
Publicado no Região Sul

Porque motivo estará a cultura quase sempre associada a subsídios públicos? Qual a razão que leva a que determinados segmentos da nossa sociedade considerem contra natura a cultura ser um negócio rentável, gerador de receitas e de impostos?

Sou consumidor de cultura, da subsidiada e da outra. Pago os meus impostos, por isso, considero-me com autoridade (moral) suficiente para discorrer algumas críticas, mas sobretudo apontar evidências…

Os poderes públicos, ou seja, aqueles que nos representam, aplicam os nossos impostos em infra-estruturas, na promoção de eventos, até nas companhias e nos espectáculos.

Mas nem sempre assim é. Estalou no Porto mais um conflito no seguimento da selecção da empresa de Filipe La Féria para a gestão do Rivoli durante quatro anos. Ouvia as declarações da representante de um dos concorrentes que perdeu o concurso, que apoiam a crítica no aumento do preço dos bilhetes, com o subsequente fim dos bilhetes subsidiados, e de alguma diversidade cultural que se vai perder. Posso entender o último motivo, desde que não signifique apoiar cegamente a Cultura que ninguém quer ver, que não enche (ou preenche minimamente) salas e serve apenas alguns, nomeadamente quem as produz, encena e executa!

Considero todavia uma enormidade criticar a escolha deste empresário, que já provou estar no mercado por direito e mérito próprios, pelo provável aumento do custo dos bilhetes! Especialmente quando sabemos que as receitas de bilheteira do Rivoli cobrem tão pouco como 6% dos seus custos!

Na nossa região também existem companhias de teatro, orquestra e um sem número de peças, concertos e tantos outros eventos onde as Câmaras Municipais e outras entidades públicas têm colocado dinheiro, condições, facilidades e outras formas de apoio. Não é que esteja contra, apenas penso que existem áreas mais indicados para investimento público, desde logo nas infra-estruturas e na subvenção de Cultura às novas gerações, criando-lhes apetência e gosto, nos géneros mais variados, estimulando e envolvendo os mais jovens. Estimular também a aprendizagem daquilo que de mais básico ou elaborado é transmitido por esta via, qualquer que seja a forma de arte. No fundo dar a oportunidade, àqueles a que chamamos futuro, de conhecer, experimentar e partilhar os legados plásticos, populares, eruditos, simples ou complexos. É a nossa Cultura, ou a dos outros.

Por isto, por tantos outros motivos, investir deve significar isso mesmo. Retirar rendimento, lucro. Seja ele a atracção de pessoas a espaços desertificados, como as baixas das cidades, ou participar na educação daqueles porque neste momento estamos a trabalhar, a produzir, a pensar, a planear, a executar. Mas sem malbaratar os parcos recursos. É necessário uma estratégia. Tem faltado isso! Só assim perceberemos a motivação do subsídio. Só assim pode ser valorizado. Até porque subsídio está longe de significar “esmola”.

2006-12-23

Natal. O tal. Este, no presente. Com muitos ou poucos presentes. Esquecendo o passado, já usado. Gasto. Não sabendo aprender com ele.

Consumimo-nos, gastamos energias naquilo que de menor relevância tem esta época. Consumimos.

A dádiva da semente, da renovação, do início do acreditar, seja lá o que isso for, quer acreditem ou não que existe um Deus, pode ser rapidamente anestesiada enchendo as artérias de triglicéridos. Tornou-se, mais que uma tradição, uma desculpa. Bendita desculpa, ainda assim.

Nesta época nasce algo que se extingue no dia seguinte. Essa terrível e fátua condição que pára a Terra, mas que é inconsequente, por vezes penso que inconsciente. A sensação é efémera. Ficamo-nos pela perpétua busca, sem nunca encontrar. Apenas dois ou três quilos. Apenas dois ou três dias em família, para os que a têm, com indiferença por tudo o que acontece no mundo. Que é afastado nestes dias, para não estragar o apetite.

Ainda assim, que seja uma altura essencialmente de partilha com aqueles que amamos. Mas que essa partilha seja efectiva. Que permita relembrar quem somos, de quem viemos. Relembremos por isso as histórias que ouvimos ano após ano, sem as quais o Natal não seria Natal.

Que no mínimo estejam as mesmas pessoas que no ano anterior, já que a vida extingue-se e recria-se. Relembremos por isso os que já não estão entre nós. Não com saudade ou tristeza, mas com carinho, recordando –ainda que por pouco tempo– a cor dos seus olhos, daquele sorriso vincado, da sua expressão, da forma como falava ou qualquer coisa que tenha marcado.

Desejo-lhe Boas Festas, um Feliz Natal.

2006-12-18

2006-12-09

Plágios, blogues ou quando a opinião se torna um facto
Publicado na edição "10 Anos" da Magazine do Algarve

Uma possível definição para plágio é: “cópia fraudulenta do trabalho de outrem que um autor apresenta como sua”, segundo o dicionário on-line da Priberan.

Plagiar é um acto reprovável, até imoral. Não faz qualquer sentido criar uma obra literária desta forma. As acusações de que Miguel Sousa Tavares plagiou algumas páginas do seu último livro são inverosímeis! Alguém que utiliza informações sobre pessoas que existiram na época da trama de um romance não é um plagiador. Plagiar seria copiar características de personagens fictícias, não de personalidades históricas.

A putativa origem dessas informações foi “Freedom at Midnight”, uma obra que descreve o final da Índia Britânica, escrito por Dominique Lapierre e Larry Collins. A “notícia” de plágio foi catapultada da “blogosfera” para alguma comunicação social e destes para as conversas de café. Tornou-se um embaraço para Sousa Tavares. É uma acusação gravíssima. Mas quem se der ao trabalho de ler a “bibliografia de consulta do autor”, página 526 da 8.ª edição, encontra referência ao livro de Lapierre e Collins.

Já discordei de análises e opiniões de Miguel Sousa Tavares, mas como autor, classifico-o como um dos “nossos” melhores. A opinião, obviamente, é pessoal.

Se por um lado os blogues ganharam um espaço incontornável no debate de ideias e até na formação de opinião, também pode ser um veículo fácil para exteriorizar alguma inveja. Pior: exteriorizá-la anonimamente. Estou convencido que foi o caso: um best-seller como Equador, assim como a actividade profissional do seu autor e muitas das suas opiniões, têm causado fortes dores de cabeça e de cotovelo. E as segundas doem mais que as primeiras.

Mas vamos ao essencial. Os blogues, a Wikipedia e tantas outras “fontes” que os motores de busca tornam acessíveis, são construídos de acordo com as influências, ideologias, interesses, orientações e opiniões de quem as escreve. Não é redutor. A informação está lá. Convém ser comparada, depois, com outras referências.

Porque motivo surgiu, agora, esta calúnia? Quem tiver oportunidade de ler os textos originais e comparar, vê que a montanha pariu um rato. Afinal, foi mais o fumo do que o fogo. Mas, entretanto, alguém ficou prejudicado. Por sinal o autor, já que o “acusador” decidiu esconder-se no manto do anonimato. Porque razão não assumiu a acusação?

Acabei de tentar aceder ao blogue que acusou Miguel Sousa Tavares. Estava indisponível. Porque será?

O Equador já vendeu cerca de 270 mil exemplares (27 edições de 10.000 exemplares). Parabéns! É merecido. Considero dos melhores romances que li. Que continue a vender como até hoje. Venha o próximo livro!

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O Magazine do Algarve faz 10 anos. Numa região onde nem sempre é fácil manter a tiragem, mês após mês, ano após ano, o Magazine tem sido uma presença constante. Por isso, pelos temas, pela amplitude de opiniões e pelo esforço assumido de ser uma revista dinâmica, independente e regional, uns sinceros Parabéns.

2006-12-01

Um marco, já nas brumas da memória...

Dinheiro fácil
Publicado no Região Sul

Aproximamo-nos da altura do ano em que nem só os consumidores compulsivos e os menos moderados descarregam as contas bancárias como se não existisse amanhã.

Neste período natalício, os consumidores são (somos) impactados com muita informação, tantos produtos, inúmeras novidades, algumas raridades e pequenas preciosidades. Tudo para suprir a necessidade suprema de oferecer.

Nada tenho contra o consumo, antes pelo contrário. É um dos motores de qualquer economia, desde que objectivo, informado e dentro dos limites da carteira de cada um. Parece-me um conceito relativamente simples. Mas não é.

Os Portugueses recorrem cada vez mais ao crédito ao consumo, muitas vezes acima da capacidade de endividamento. Isto é de certa forma preocupante. Mas só de certa forma. Tenho um amigo que me chama sempre à atenção para a economia paralela que grassa neste País. Biliões de Euros que circulam por aí, que escapam ao Fisco, que elevam em termos reais a capacidade aquisitiva de muitos portugueses. Podemos explicar o aumento da venda de carros topo-de-gama, ou de condomínios de luxo, porque existe um determinado grupo com alto poder aquisitivo, mas é difícil explicar como foi possível alterar radicalmente o nosso parque automóvel em menos de 10/ 15 anos. Podia recuar mais uma década e aí seria abissal! Ou como foi possível sustentar a subida dos preços do imobiliário nos últimos anos. Hoje compra-se um T3 pelo preço de uma moradia na década de 90. O rendimento das famílias subiu assim tanto?

E fomos a economia que menos cresceu nos últimos anos. Seremos certamente a economia que menos crescerá nos próximos.

Podem tentar justificar o consumo com o recurso ao crédito, mas de facto, para ter crédito, o banco estuda o cliente, atribui-lhe um rating, que não é mais do que avaliar a probabilidade de incumprimento de cada um. Em resumo, a garantia da boa cobrança dos juros e do capital.

Ora aqui entra outra noção interessante: a nossa banca é das mais eficientes ao nível europeu. O crédito mal parado embora a crescer, está garantido e controlado. Depois das sociedades financeiras de aquisições a crédito, apareceram as empresas de recuperação de créditos. Parece pois que estamos a entrar num cerco. Mas se olharmos para os relatórios de contas dos bancos, os seus lucros crescem todos os anos. Bem sei que não posso seguir esta linha de raciocínio minimalista, pois a “coisa” é mais complicada que isto, mas estão reunidas incongruências suficientes.

2006-11-29



Algar Seco (Lagoa)... num dia húmido.

2006-11-22

Mudar é crescer
Publicado no Jornal do Algarve

Crescer é desenvolver. Desenvolver é mudar, é acreditar que essa mudança introduz uma diferenciação positiva. Com o tempo evoluímos, por vezes quase sem querer ou sem sentir. Seja pela experiência e pelo saber adquiridos, ou pelo simples facto de repensarmos pressupostos e confrontarmo-nos com novas ideias… ou até velhas. Também regredimos. Por vezes estagnamos. Fundamentalmente mudamos. Eu e nós. O individuo e a sociedade.

A busca e a partilha do saber, a opinião adquirida e promovida, a abertura às influências exteriores e uma cultura que facilite o acesso à informação, são pilares do desenvolvimento.

Sabemos hoje que para produzir melhor, necessitamos de mais competências, mais formação especializada, mas também mais cultura. O que fazemos define quem somos. O resto, aquilo que queremos e podemos ser. Apostar nisto não é mais que aprofundar a democracia.

O Governo já fez saber que quer reestruturar o Estado. Não interessa para aqui se o vai tentar ou conseguir. Não interessa para já, também, se a Administração Pública tem muitas ou poucas pessoas, mas definir o que esperamos, enquanto cidadãos, contribuintes e eleitores dessa figura abstracta e tantas vezes retórica que é o Estado. Esta é a grande questão que se coloca. Melhor: é o desafio! Antes de mudar alguma coisa, se não reflectirmos sobre isto, estamos a condenar o processo. Estamos, no mínimo, a limitar o processo.

Existem muitas áreas que podem ser reorganizadas, reformadas e até extintas. O Estado foi duplicando serviços, competências, atribuições, etc. A Administração Pública, Central e Local, foi crescendo sem grande coerência. Não existiu planificação efectiva. Não existiu (nem existe!) uma estratégia global ou uma política de recursos humanos. O Estado demitiu-se durante anos da diferenciação dos seus quadros, da evolução qualitativa, da promoção da especialização e da formação contínua das várias carreiras. O número de funcionários foi crescendo, crescendo, crescendo… Não sabemos se são em excesso. Sabemos, por outro lado, que a sustentabilidade é duvidosa. Pelo menos sem subir ainda mais a carga fiscal, ainda que fique de fora uma parte da economia, que teima em fugir aos cofres públicos. Provavelmente uma reforma séria começava por aqui: conter e minimizar a economia paralela.

Existe um grave problema por resolver (não sei se o será algum dia). Refiro-me concretamente ao modelo de administração e à organização e direcção das várias estruturas. Mas sobretudo à responsabilização dos dirigentes pelos resultados. Dos níveis intermédios até ao topo. Isto implica que exista uma estratégia e planeamento.

A mudança, se a quisermos efectiva e capaz de alterar a situação actual, deve ser feita à custa da programação de objectivos, responsabilizando os dirigentes pelos resultados, promovendo avaliações de desempenho. Quem não cumpre, sai. Em conjunto, devem ser avaliados os restantes funcionários, dependendo a progressão das carreiras da produtividade e dos objectivos cumpridos. De forma clara, séria e credível.

2006-11-20

2006-11-19

2006-11-14

Um Blogue para ir explorando... aqui!

O Dr. Paulo Macedo estará de saída em Maio?

O Sindicato dos trabalhadores dos impostos entende que o ordenado do Director-geral da DGCI, Paulo Macedo, na ordem dos 23 mil Euros, é bem pago!

Aqui está um sindicato que admitiu que errou, quando acusou o Governo de ter nomeado um alto dirigente com um vencimento ao nível do sector privado.

De facto, ganha muito acima dos seus homólogos, muito acima do seu Ministro, do Primeiro-ministro ou do Presidente da República. Estranho é estes cargos serem tão mal pagos! Um Ministro ou um Secretário de Estado tutelam milhões de Euros, recebendo ao nível de Directores intermédios de empresas privadas…

Como é que se responsabiliza gestores de áreas vitais, sem pagar em conformidade? Sem receita não há despesa... este Director-geral já conseguiu recuperar mais verbas que os seus antecessores, mas como somos um País de moralistas, ou há para todos, ou ninguém come. Assim vamos ficando.

Se o Estado (i.e. todos nós) quer mais eficiência, deve rever os vencimentos de uma parte dos gestores de organismos públicos. A DGCI é, sem dúvida, a par da Segurança Social, uma área onde devemos pagar os melhores gestores que conseguirmos contratar. Mesmo os melhores. Caso contrário…


Mértola by night

2006-11-13



Já estou com saudades…

Bispos católicos não reconhecem competência ao Estado para legislar o aborto

(aproximação das declarações de um Bispo na Conferência Episcopal em Fátima)

Como é que um Bispo com responsabilidades assume uma afirmação destas na frente das câmaras? (Por trás já era grave!)

Parece que para além de perderem fiéis, estão a perder sanidade mental. Uma coisa é ser contra o aborto, outra é emitirem despautérios destes…

Ou estes senhores da batina evoluem, ou vão perder cada vez mais do espaço que ocuparam durante séculos (e reforço que não me refiro, obviamente, à opinião relativa ao aborto, mas ao não reconhecimento de competência legislativa aos órgãos eleitos ou nomeados nos termos da lei!)

2006-11-09

GREVE

Acabo de ouvir que os sindicatos alegam 80% de participação e o Governo 5%.

A diferença é abissal. A verdade ficará algures entre os dois números, bem mais perto dos 5%, acredito!

Porque não atribuir a competência de aferição e publicitação dos dados a uma instituição pública isenta, como o Tribunal de Contas? Se o “Estado” leva o tempo que leva para saber quantos funcionários tem, como é que pode saber quantos fizeram greve? Os sindicatos pior; a credibilidade dos seus dados é mínima.

Apesar de tudo, os ganhos com a greve não devem ser displicentes, sabendo que milhares de funcionários públicos não vão receber o dia, mais custos associados! O que fica por fazer será feito, mais tarde ou mais cedo…
A questão do aborto
Publicado no Região Sul

Há uns anos decidiram abortar a despenalização do aborto. Faltou coragem política para enfrentar um País cada vez menos católico e pio, embora crescentemente paternalista.

Para tomar uma decisão, aponto duas reflexões: quem beneficia e quem sai prejudicado. Claramente prejudicado, de facto e no limite, fica o feto. Não haja dúvida sobre isto. Por outro lado, os grandes beneficiados são milhares de mulheres que todos os anos recorrem ao aborto clandestino, colocando em risco até três anos da sua liberdade, a sua saúde ou mesmo a vida.

A despenalização da interrupção voluntária da gravidez permite erradicar desde logo um “mercado” clandestino, ilegal, que não paga impostos e que não é regulado, com a agravante de suprir uma necessidade envolta fragilidade emocional e risco de prisão, que inflaciona o preço deste acto. Ainda podemos discutir se é ético ou não, mas mais importante é perceber se o voto é esclarecido e informado. Ainda que seja sempre um voto e conte apenas como um!

Pessoalmente não sou a favor do aborto. O que não significa que seja contra. Votei favoravelmente no último referendo e votarei novamente pela despenalização. Pelos mesmos motivos: considero que a decisão deve caber ao casal, com acompanhamento psicológico e clínico, com regulação.

Em relação ao referendo, sou contra. O Governo tem meios mais baratos para perceber o que o País pensa ou quer. Foi eleito para isso. Não vejo vontade de referendar o TGV, ou outras “grandes” obras…

O nosso conceito de vida tem mudado com a evolução da ciência, dos costumes, com o processo de laicização da sociedade, da sua modernização, etc. Mas onde começamos a “ser”? Todos nós tivemos um início “anfíbio” até deixarmos o líquido amniótico, adquirindo subsequentemente o direito ao nome. Mas antes disso, quando? Com a fecundação? Quando começamos a responder a estímulos? Esta questão pode ser colocada em vários planos. Desde logo biológico, clínico e moral. Mas como no limite compete ao Estado, i.e. todos nós, a tarefa de decidir, legislar e submeter os restantes a essa decisão, ficamos novamente presos aos conceitos dualistas, pré-formatados, enviesados e redutores. Existirão sempre duas correntes. A decisão será sempre inconciliável. Já alterar o quadro jurídico que penaliza quem recorre ao aborto poderia ser uma saída, ainda que um pouco hipócrita. Alinhamos por agora com os Países sub-desenvolvidos. Por contraste, na maioria do hemisfério norte, o aborto é legal!

Mas apesar disto, o Estado deve actuar na área da prevenção, do planeamento familiar e da educação sexual, mas não deve competir a todos nós pagar a factura da IVG. Existe um sector privado capacitado. Até hoje têm pago do seu bolso. Devem continuar! O enfoque não deve ser no financiamento, mas na liberdade individual. Não sendo uma patologia em sentido estrito, não deve consumir recursos públicos, que são e serão escassos.

Venha o debate!

2006-11-04

Toolbox
Publicado no Magazine do Algarve

A Sociedade do Conhecimento, enquanto promessa política, fica sempre bem. É de facto um objectivo imprescindível e essencial a uma sociedade que se quer moderna e dinâmica. Até evoluída.

A forma como se procura atingir esse “estado d’alma” é que denota se o esforço é retórico, ou, ao invés disso, um propósito, um desígnio, uma missão.

A competitividade já não se faz à custa de trabalho indiferenciado, mal pago, máquinas ultrapassadas, métodos e técnicas decadentes ou até com empresários pouco preparados para lidar com o dinamismo próprio de um mercado tendencialmente global.

Os recursos humanos devem ser cada vez mais diferenciados, com formação específica e contínua. Este esforço não deve ser apenas das empresas ou dos empresários. Também os trabalhadores devem participar desse esforço de forma pró-activa, procurar a formação. Mesmo que não lhe seja fornecida, ela pode ser adquirida no “mercado”, seja co-financiada ou não.

A velha questão, de base ideológica, relativa à preponderância da concorrência do trabalho e do capital na obtenção do produto é cada vez mais indiferente. Ambos se complementam e, acima de tudo, contribuem para os objectivos que são comuns e dependentes. Existe ainda uma classe de empresários e de trabalhadores que, por falta de formação, de visão ou de habituação, ainda não chegaram à conclusão que o seu emprego e actividade só são sustentáveis se estiverem em sintonia e se trabalharem no mesmo sentido. Só com o desenvolvimento das condições de trabalho, da qualificação e da indexação da remuneração à produtividade é possível sustentar o desenvolvimento.

Os milhões que têm sido, na minha opinião, esbanjados pelos sindicatos, associações patronais e empresariais ou de sector, empresas privadas e entidades públicas, semi-públicas, sociais e todas as outras que têm subsistido às custas dos fundos para formação profissional, vindos da União Europeia, poderiam ter sido melhor geridos. Não digo com isto que não hajam entidades e formadores de excelência. Mas uma parte está desadequada. O investimento que tem sido feito, provavelmente poderia ter trazido mais vantagens no tecido produtivo, se melhor aplicado. A formação foi massificada, mas agora que o fluxo financeiro começou a ser reduzido, é necessário apostar na qualidade e na avaliação dos resultados. Avaliação isenta e independente.

A caixa de ferramentas mais importante que qualquer cidadão tem é a sua capacidade de querer e saber aprender. Aprender é um “subproduto” importante, mas a tónica deve ser colocada na vontade de querer mudar comportamentos, atitudes e rotinas, traduzindo em produtividade o esforço que a comunidade tem feito, ao financiar a formação de milhares ou milhões de pessoas.

É razoável, por exemplo, o País apresentar ainda classes profissionais, com formação altamente diferenciada, como médicos, advogados, até professores, que apresentam alguma iliteracia informática, ou relutância na massificação do seu uso? Não me parece!

Mas, em bom rigor, se compararmos a nossa realidade actual com aquela de há vinte anos, verificamos que a evolução foi brutal. Resta-nos continuar e tentar acompanhar as evoluções dos Países com que partilhamos mercado, projectos e objectivos.