2005-06-14

O Camarada Daniel

Faleceu um dos grandes políticos da nossa república. Álvaro Cunhal. Além de escritor, deixou igualmente muito dele na nossa história. Será sempre recordado como alguém que abdicou de si próprio em nome do que acreditou. Um político como poucos, um homem de serviço e sempre em serviço.

A sua história confunde-se com a do Partido Comunista Português. Viveu num período em que fazia falta pessoas carismáticas, éticas e abnegadas. Hoje ainda fazem falta. Já afastado do estrelado de que sempre fugiu, desapareceu com ele uma estirpe de homens que deram tudo, tudo o que tinham para que hoje, por exemplo, possa escrever estas linhas.

Álvaro Cunhal não morreu. Álvaro Cunhal estará vivo enquanto sabermos honrar o seu legado, a sua vida, o seu sofrimento.

Esta geração pós 1974 (a minha) tem uma ideia romântica do Estado Novo. Só por isso se percebe que tenham como garantida a liberdade, tão rapidamente ultrapassada pela libertinagem… Hoje, quando se ouve falar em tortura, não percebemos que por muito que ela doesse, vexasse, humilhasse, castrasse, perturbasse… a maior dor que sentiam era o tempo que perdiam, que poderia ser aproveitado na “luta”. Esta luta nunca será nossa.

Perdeu-se mais que um homem, perdeu-se uma referência.

Não comungo das suas referências políticas, das acções do seu PCP, que se seguiram à democratização do país, mas, mesmo assim, Portugal ficou mais pobre.

Resta-nos as páginas de Manuel Tiago. Essas ficam para sempre…

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