2007-02-01

Sem Grandes Portugueses?
Publicado no Região Sul

Estão “escolhidos” os 100 Grandes Portugueses. Nos 10 primeiros, lá estão, ombro-a-ombro, Salazar e Cunhal. Tanto um como o outro merecedores de figurarem num lote mais alargado… mas não nos 10 primeiros. Mas esta é apenas a minha opinião. Enfim, a escolha está feita e foi auditada pela PricewaterhouseCoopers. Foi a escolha de quem quis votar. Vale o que vale. A RTP conclui assim a primeira parte do seu programa “Os Grandes Portugueses”.

Do lote das 100 personalidades, algumas são de presença questionável, desproporcionada até. São riscos que se correm neste tipo de concursos. Misturar “popularidade” com “feitos”. Até fiquei surpreendido por não existir mais “entulho” entre os nomeados.

Álvaro Cunhal não deixa ninguém indiferente, até um conservador não terá problemas em aceitar que foi um dos homens-chave no combate contra o Estado Novo. Mesmo que não tenha sabido ou conseguido evoluir com o Portugal pós revolucionário, não deixa de ter o seu lugar nos “Grandes Portugueses”. O mesmo para Otelo Saraiva de Carvalho, que também lá está por mérito, apesar do que fez depois. Ter liderado e operacionalizado a revolução de Abril é feito suficiente para não ser esquecido. É que muitas vezes teimamos em considerar a média do que se fez. Somos precisamente o somatório de tudo o que fomos e fizemos, de bom e de mau. Mas devemos destacar, ainda assim, as grandes contribuições.

Voltando a António de Oliveira Salazar, julgo que muitos portugueses ficaram estupefactos quando ouviram o nome do antigo ditador. Especialmente por ter ficado nos 10 primeiros. Mais os que viveram esse período, do que os outros, admito. Faz-me pensar o que diriam os portugueses do século XVIII ao lerem o nome de Sebastião José de Carvalho e Melo!? Não deixa de ser um exercício de reflexão interessante tentar perceber as razões de tal escolha, as motivações, tanto quando for possível extrapolar, especular, teorizar, etc.

Salazar ainda representa uma certa portugalidade envergonhada, pouco afoita aos riscos, tímida e cinzenta. Até atemorizada e pia. É ainda o governante do “Portugal dos pequeninos” que teimamos em soluçar, não olhando para a frente. Considero-o também uma metáfora da nossa tentativa colectiva de esquecer o passado, gorada pela força que fazemos. Fechou-se o ditador no sótão das memórias envergonhadas. Estará por isso sempre presente, ainda que recalcado… pelo menos enquanto não o desprendermos. É necessário esforço para conseguir chegar mais além. Os espanhóis já ultrapassaram Franco, os alemães Hitler, os italianos Mussolini, os Russos Estaline, etc.

Portugal, sem grandes portugueses? Precisamente o contrário. Séculos de história, de conquistas, concessões, criação, invenção, empreendedorismo. O País foi moldado por milhares de personalidades que nos deram a identidade que temos, assim como tantos outros anónimos. Também fomos feitos de pilhagem, massacres, ódios e delírios… tudo isto é Portugal!

Sou português por nascimento, mas muito mais por opção. Este concurso será esquecido, mas espero que tenha tido o mérito de fazer recordar a cepa de onde viemos. Os nossos heróis, os nossos antepassados, os nossos contemporâneos, enfim, aqueles que se destacaram… e foram tantos.

3 comentários:

João Viegas dos Santos disse...

Bah!
A censura existe, aqui e noutros lugares, n'a éi!
Eles andam por aí?!
Viegas

Anónimo disse...

bah!
Eles andam por aí!
Viegas

Anónimo disse...

Bah!
Simplesmente bah!
O sensor aprova ou não aprova?
Eles andam por aí!
Viegas